domingo, 6 de setembro de 2015

Manifestações sociais da

última década podem

gerar novo paradigma


Perspectiva de horizontalidade, trazida por novos movimentos, é uma crítica à falta de eficiência do Estado...


Jornal GGN - Os movimentos sociais urbanos brasileiros da segunda década dos anos 2000 podem estar vivendo um período de mudança de paradigma em relação ao modelo de formação, articulação e atuação, e isso em decorrência tanto do impacto crescente da globalização, quanto do uso das novas ferramentas da comunicação. Essa tese foi o tema de debates de uma das edições de agosto do programa Brasilianas.org, exibido na TV Brasil. 
A especialista em movimentos sociais e professora da Unicamp, Maria da Glória Gohn, observou que as ferramentas virtuais não apenas revolucionaram as comunicações, como também a articulação e a atividade das manifestações sociais. "Hoje grupos se articulam sem necessariamente serem um movimento social com trajetória e pertencimento. Ao mesmo tempo, estão surgindo movimentos mais horizontais, sem a mesma articulação que observamos décadas atrás, quando os locais de formação política eram sindicatos, associações de base e eclesiástica", destacou.
Ainda, segundo a especialista, parte considerável dos grupos que surgem, sobretudo entre o final e início dos anos 2010, não quer envolvimento com partidos. "A horizontalidade deles é uma crítica, não [necessariamente] contra o Estado, mas sim por eficiência. Não negam políticas públicas, e sim querem políticas públicas com qualidade", arrematou.
Em outras palavras, o formato próprio da internet permite a atuação de múltiplos protagonistas, assim, na lógica 'kuhnuana', podemos estar vivendo um momento de crise das antigas formas de mobilizações sociais, que tendem a monopolizar o conhecimento e o poder através de estruturas verticalizadas, para aquelas de caráter horizontal, que permite uma maior participação e formação política do indivíduo. É claro que, entre a verticalidade e a horizontalidade existem infinitas graduações.
O filósofo e professor da EACH-USP, Pablo Ortellado ponderou que a negação ao sistema político é mais um dilema dos novos movimentos sociais. Isso porque ainda não é possível determinar se “essa valorização interna da democracia proposta por eles”, em oposição ao modelo político tradicional, “busca substituir a representação política a partir de uma negação mais profunda do sistema, com a construção de uma saída própria, ou se as manifestações sociais contra os políticos permanecerão como algo de fora do sistema, pressionando-o para garantir os direitos sociais não conquistados”, completou. 
Em relação ao papel das novas tecnologias na formação e construção dos movimentos sociais dessa década, Ortellado lembrou que a história da internet revela que o movimento de horizontalidade está na matriz da criação e de muitas de suas redes sociais, a exemplo do Youtube, Flicker e Twitter, “fundados por representantes de movimentos antiglobalização, ativistas do final dos anos 1990, ou do início dos anos 2000”. 
Para não homogeneizar
o que é heterogêneo 
O escritor e militante do movimento negro, Allan da Rosa, ressaltou que os movimentos sociais na periferia, nascem, sobretudo, pela busca de melhor qualidade de vida (segurança), educação, transporte e saúde. “Só o tecle e o curtir [das redes sociais] não ia garantir nossa existência”, reiterou, destacando, porém, que a internet garante hoje a repercussão de notícias que jamais seriam reverberadas “pela mídia graúda”.
“A internet é uma teia onde você houve o que quer e o que não quer. Muitas vezes é caótica, mas garante um discurso, enquanto você tem [nas mídias tradicionais] um discurso de cima para baixo”, prosseguiu.
Para o escritor a movimentação dos grupos sociais que nascem na periferia é bastante complexa. Dessa forma, é preciso tomar cuidado com a homogeneização do que não é homogêneo. “Quando você fala de periferia, você fala da maioria, da leva, que não é a que controla a caneta nem o carimbo, mas que faz a cidade ter a atmosfera que tem de norte ao sul do país. As lutas na periferia [criadas pela falta de políticas públicas e violência do Estado] vão desde a área da saúde, moradia, até transporte. As juventudes da periferia estão muito organizadas, mas não seguem essa pauta antiga das organizações. Tem desde aqueles que reivindicam qualidade nas escolas, até aquele que atua no neopentecostalismo ferrenho e o outro que abraça a ideia do individualismo do ‘vamos subir por nós mesmos”, alertou. 
Acompanhe abaixo o debate na integra, coordenado pelo jornalista Luis Nassif...

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