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terça-feira, 8 de setembro de 2015

O enigma chamado Lula

Os que não conseguem decifrá-lo, são devorados por ele. Foi o que aconteceu com a direita e com a ultra esquerda brasileiras...

                                

Emir Sader


Emir Sader
Lula é um enigma, que não é fácil de ser decifrado. Os que não conseguem fazê-lo, são devorados por ele. Foi o que aconteceu com a direita e com a ultra esquerda brasileiras.

Mais além das sua extraordinária biografia – com que nos acostumamos, mas que associa um caráter épico de sobrevivência das famílias pobres do Brasil, com a combatividade do Lula para se projetar como líder politico incomparável -, ele soube, como ninguém, intuitivamente, decifrar as condições contraditórias que herdara da era neoliberal e construir um modelo econômico e político que tornou possível a maior transformação social do país, o mais desigual do continente mais desigual.
Mas que enigma é esse? É o da capacidade de construir alternativa ao neoliberalismo em tempos de absoluta hegemonia neoliberal, em escala mundial, regional e local. Lula soube traduzir a posição histórica do PT – a prioridade do social -, em políticas concretas, para o que teve que construir o esquema político que viabilizasse um governo com essa prioridade, em condições em que não tinha maioria no Congresso e a esquerda não era maioria no país. Soube construir uma aliança com setores do empresariado, para possibilitar a superação da longa e profunda recessão herdada do governo de FHC.
Lula soube localizar, antes de tudo, as dificuldades deixadas pelo neoliberalismo. Não apenas a recessão econômica, a desarticulação do Estado, a abertura da economia, a desindustrialização, o peso do agronegócio, a precarização das relações de trabalho, uma política externa de subordinação absoluta aos EUA. Mas também que haveriam de ser mantidos, como o controle da inflação.
Por isso Lula combinou um ajuste das contas públicas com a promoção das políticas sociais como a centralidade da ação do seu governo. Os que só olharam para o primeiro aspecto, ficaram na denúncia da “traição” de Lula – a ultraesquerda – ou de seu fracasso – a direita.
Lula articulou um ajuste com a promoção das políticas sociais – de combate à fome na sua primeira fase. Quando a direita e a ultraesquerda se uniram numa campanha de denúncias na mídia com acusações no Congresso, acreditavam que tinham derrotado o Lula – não se atreveram a tentar o impeachment com medo da reação popular -, mas tentaram sangrar seu governo para derrotá-lo nas eleições de 2006 – os efeitos das políticas sociais começavam a se fazer sentir. Lula os derrotou e conseguiu reeleger-se, apoiado na prioridade das políticas sociais.
Combinando a centralidade das politicas sociais, o papel ativo do Estado como indutor do crescimento econômico e a prioridade dos processos de integracão regional e dos intercâmbios Sul-Sul, Lula conseguiu reverter o essencial da herança maldita que ele tinha recebido de 10 anos de neoliberalismo no Brasil: superar a recessão e articular o crescimento econômico com a distribuição de renda.
Essa é a chave do enigma Lula – a construção de alternativas de saída do modelo  neoliberal, embora com a herança recebida,  em um marco internacional de hegemonia neoliberal. Lula agiu pela ação nos elos de menor resistência da hegemonia neoliberal. Por isso a direita foi sucessivamente derrotada em quatro eleições,  a ultraesquerda fracassou sem construir uma alternativa própria e a opção(?) contra os governos iniciados por Lula seguem – no Brasil, como nos outros países com governos progressistas – na direita.  

Por isso Lula mencionou recentemente a disposição de lutar por um novo mandato presidencial em 2018. Mas dessa vez não bastará a menção dos inquestionáveis sucessos das políticas dos governos desde 2003; será necessário propor um novo programa ao país, com o Brasil que queremos, em todos os planos, e construir as alianças políticas, sociais e econômicas que viabilizem esse novo projeto. 

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