Qual é a força que a
China quer mostrar?
A imprensa, verifique esta manhã, tratará o grande desfile militar comemorativo dos 70 anos da vitória chinesa sobre os invasores japoneses, na II Guerra Mundial, como uma exibição de força bélica do país.
É um – senão mais que um – erro.
A parada de 12 mil soldados, 200 aviões, 500 equipamentos de combate, é muito menos significativa que a presença de 30 chefes de Estado e o destaque que teve, entre eles, o tratamento de aliado preferencial que recebeu o presidente russo, Vladimir Putin.
Seria como se os EUA anunciassem um corte de 200 mil pessoas em seu pessoal militar.
O maior desfile militar já realizado pela China é, essencialmente, político.
As armas e artes de guerra, como dizia Carl von Clausewitz, são apenas a extensão dos objetivos da política.
E elas serviram para demonstrar que a China quer ir além de seu papel de mercado (e mercador) da economia mundial.
Observem, no final do mês, como isso se expressará no discurso de Putin na Assembleia das Nações Unidas.
A China quer se impor como avalista – financeiro, inclusive – de uma mudança de paradigma na ordem internacional e o tentará fazer de forma muito diferente do que havia no mundo bipolar da Guerra Fria, que desde a derrocada da União Soviética tornou-se unipolar e norte-americano.
A Russia dirá, rebatendo as sanções econômicas que lhe querem impor, que o Ocidente não controla toda a energia do mundo.
A China já está dizendo que os EUA e sua ameaça de elevar as taxas de juros já não controlam todas as finanças do mundo.
Os dois, juntos – a China com os meios físicos e financeiros e a Rússia com o conhecimento tecnológico, dirão que os americanos já não controlam toda a força do mundo, como há 20 anos vêm controlando.
Pode parecer temerário fazer estas afirmações, mas é perceptível que estamos às vésperas do fim de uma era de poder imperial.
É obvio que não nos interessa, aos brasileiros, torcermos por um novo império que se substitua ao que decai.
Mas, incrivelmente e apesar de qualquer pretensão hegemônica que possa haver, não há a possibilidade de qualquer ruptura que não seja em direção à multipolaridade.
É dramático que nosso país, neste momento, esteja à míngua de força e interlocução mundial.
Dramático mesmo, pois somos um dos muitos pólos de poder que podem se impor neste novo arranjo.
Ainda assim, com a miopia de nossa elite dirigente, presa a fofocas de vila e aos “disse- me-disse” paroquianos, embora ainda sejamos coadjuvantes, já não somos simples figurantes.
É preciso estar de olhos abertos para aproveitar as oportunidades que se oferecem de afirmar o Brasil.
Embora os ciclos de poder imperial no mundo sejam, como tudo, cada vez mais curtos, perder o tempo da sua mudança é o maior crime que se pode cometer contra o país.
Em seu “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”, Lênin afirmava que quando os de baixo não querem e os de cima não podem continuar vivendo à moda antiga é que a revolução pode triunfar”.
Não sou lá um leninista, mas acho que essa afirmação – se não serve totalmente, talvez, para a ordem social – retrata com fidelidade os momentos de mudança na ordem internacional.
O mundo muda e está mudando vertiginosamente.
E vertigem, em História, é um processo de décadas.
Os chineses, que hoje desfilam seu poderio, estavam, há 50 anos, lutando por uma tigela de arroz.
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