Corrupção:
das raízes históricas mundo afora à contemporânea realidade no Brasil
AMgóes – Esta postagem foi compilada de trechos da monografia produzida pela Procuradora da República em Porto Alegre, Márcia Noll Barboza (“O COMBATE À CORRUPÇÃO NO MUNDO CONTEMPORÂNEO E O PAPEL DO MINISTÉRIO PÚBLICO NO BRASIL”/AQUI). Especificamente condensada, nos limites da percepção do blogueiro, com vista a transmitir generalidades minimamente didáticas sobre o tema, ora repleto de apaixonantes quão controversas ilações de natureza política nas redes sociais, cuidei de contemplar a provável curiosidade do senso comum, face à canalhice da mídia golpista e seus comparsas subjacentes que conspiram contra o Estado democrático de Direito.
Sabemos que a corrupção não é um fenômeno novo. Dela se nos
fala em documentos históricos, em textos literários e em estudos da história,
havendo exemplos ocorridos nas mais diferentes épocas e em distintas formas de
organização estatal. Sem embargo, porém, de que tenha sempre existido, a
corrupção hoje dá causa a uma renovada apreensão; ela viceja em uma nova
realidade, oferecendo mostras de que se tornou mais intensa e mais complexa.
Certo, a corrupção não é um fenômeno de fácil medição; dissolve-se quase sempre
no silêncio e na clandestinidade. Não é menos certo, contudo, que atualmente se
permitem observar elementos de um quadro de corrupção consideravelmente
agravado. A internacionalização das relações comerciais e financeiras, a
diminuição (ou a eliminação) dos controles estatais, em especial sobre o
sistema financeiro, a desestruturação do socialismo marxista e a conversão de
um bloco de países ao regime capitalista, a expansão da cultura do consumo e da
lógica da maximização do lucro, a formação de organizações privadas
(empresariais) com enorme poder econômico, a intensificação da informação e da
comunicação – todos esses são fatores que constituem um novo mundo de
possibilidades para a prática da corrupção e o seu encobrimento. Em acréscimo na
constatação desse ambiente favorável, subsistem os dados sobre os casos de
corrupção descobertos em numerosos países a revelar o grau de complexidade e de
sofisticação da corrupção contemporânea.
O mundo sem lei do sistema financeiro
O sistema financeiro se encontrava, nesse período,
submetido a controles e a uma política voltada para o desenvolvimento com
endividamento. O custo do dinheiro não podia ser alto, para que não
representasse um obstáculo ao desenvolvimento econômico. Na disputa de poder
entre devedores e credores, eram vencedores os primeiros, logrando impor um
sistema normativo a eles favorável. O que modificou esse quadro foi o aparecimento, nos anos
1970, dos chamados eurodólares, moeda norte-americana, em grande quantidade,
investida fora dos Estados Unidos e acumulada nos bancos europeus. A emissão de
moeda norte-americana era intensa e, por isso, o governo dos Estados Unidos
estimulava o investimento no exterior, evitando que houvesse uma entrada de
dólares demasiado alta no mercado interno. O que ocorreu, então, foi que os
eurodólares, estando fora da jurisdição norte-americana, não podiam ser
controlados pelos Estados Unidos. De sua parte, os governos europeus não
exerciam controle sobre moeda que não era sua.
E, assim, as entidades
financeiras perceberam que, com os eurodólares, detinham enorme poder e grande
liberdade, situação ainda reforçada com
o aumento do fluxo de petrodólares nas crises do preço do petróleo na década de
1970. A partir daí, na disputa entre
devedores e credores, venceriam os últimos. De fato, na década de 1980, com
Thatcher e Reagan – que somente anteciparam o que era inevitável –, o movimento
de liberalização do sistema financeiro iria apenas num sentido: o da liberdade(ou
permissividade?) total. As únicas travas seriam os fusos horários dos mercados
ao redor do planeta. A economia não seria mais gerida pelo Estado, e, sim, pela
taxas de juros.
É nesse sistema financeiro incontrolável que fluem
livremente os 400 bilhões de dólares do narcotráfico obtidos a cada ano,
segundo estimativa do programa da ONU para o controle do tráfico internacional
de drogas. Esse dinheiro, que transita em operações de lavagem de um canto do
planeta a outro, alimenta esquemas de corrupção das polícias nos países
produtores e circuladores de drogas. E entra também em outros negócios das
máfias, que, novamente, necessitam corromper as autoridades. Por sua vez, o
dinheiro das autoridades corruptas migra para os paraísos fiscais, passando
novamente por operações de lavagem muito difíceis de detectar. E os exemplos
poderiam seguir-se, mais e mais, num exercício de imaginação com base na
realidade ‘globalizante’ que nos cerca.
História da corrupção no Brasil
O processo de colonização do Brasil teve, como elemento
marcante, o fato de não haver consistido na realização de um projeto de nação:
os que aportaram no Brasil não tinham nem projeto de nação nem compromisso
moral ou ideológico com qualquer coletividade; moral, mesmo, não detinham, mas
apenas o desejo de tirar proveito das riquezas da terra descoberta. Como ensina
JOSÉ MARIA DOS SANTOS, Portugal enfrentava dificuldades para povoar o
território conquistado, somando uma população, à época do descobrimento, de
apenas um milhão e meio de habitantes. Isso explica, em parte, o fato de
haverem sido enviados para a colônia os encarcerados e os degredados. Rumaram
também para o novo território os falidos, os marginalizados, enfim, aqueles que
não tinham perspectivas em Portugal. A atitude frente ao Brasil era
espoliadora. Quem aí chegava cuidava simplesmente de extrair o que podia,
remeter o produto para além-mar, enriquecer e proteger-se a si próprio. O
governo em Portugal, de seu lado, interessava-se em manter essa realidade. Por isso não fomentava
e até impedia o aprimoramento cultural e moral da gente na colônia. O ensino
não passava das lições básicas a cargo dos jesuítas; não era permitida a
criação de faculdades.
Ilustrativo, por igual, é o verso do poeta GREGÓRIO DE
MATOS, que ficou conhecido como “Boca do Inferno”: No Brasil, a fidalguia/ no
bom sangue nunca está;/ nem no bom procedimento: pois logo em que pode estar?/
Consiste em muito dinheiro,/ e consiste em o guardar:/ Cada um o guarde bem,/ para
ter que gastar mal... Oh! Veja eu assombrada/ Cidade tão suja e má,/ avessa de
todo o Mundo,/ só direita em se entortar. 35 Nesse verso, coligido por Sérgio Habib, o poeta exteriorizava sua visão da colônia da segunda metade do século
XVII. Vivendo na Bahia, detinha clara percepção daquele novo mundo, daquela
nova sociedade em que código moral era nenhum. 36 Como explana o citado autor,
ao contrário do que ocorreu em outros lugares, no caso específico do Brasil, os
colonizadores não se preocuparam em construir o estofo moral do povo; em
realidade, conforme prossegue, não se preocuparam com o seu destino, enquanto
nação. Dessa sorte, as estruturas sociopolíticas brasileiras formaram-se
viciadas, contaminadas por elementos como o patrimonialismo, o clientelismo e o
coronelismo, recorrentes em nossa realidade sociopolítica.
No Brasil, o primeiro sistema político foi o das capitanias
hereditárias, de estrutura feudal, que implicava a 'privatização' do
patrimônio do rei. O território havia sido dividido em faixas, doadas pela
Coroa portuguesa a nobres do reino mediante o compromisso de povoar essas
terras, garantir sua segurança, explorar suas riquezas e promover, nelas, o
culto à fé cristã. O donatário podia distribuir terras aos colonos, fundar
municípios, criar órgãos administrativos, etc. O sistema, contudo, não
funcionou perfeitamente e, já em 1548,
foi instalado um governo central. Assim, a sociedade brasileira se desenvolveu de
maneira descentralizada quanto à exploração e à busca de riquezas e
centralizada quanto à observância das ordens recebidas de Portugal. Isso
permitia a arrecadação de impostos, que, com o tempo, se mostrou excessiva e
predatória, tal a voracidade e a necessidade da metrópole.
Portugal precisava manter o estamento, uma burocracia de
aristocratas que não trabalhava, mas apenas vigiava e parasitava a classe
produtiva. Só ao rei, senhor dos territórios conquistados, era dado conciliar o
comércio com a grandeza moral. Os funcionários do rei, que compunham o
estamento, limitavam-se a fiscalizar, a arrecadar e a consumir. Nada produziam,
a não ser a própria ruína do reino. Em semelhante regime tradicional e
patrimonialista, figurava o cargo também como propriedade pessoal. Conforme leciona RAYMUNDO FAORO, tratava-se de uma
burocracia, não no sentido moderno, como aparelhamento racional, mas da
apropriação do cargo – o cargo carregado de poder próprio, articulado com o
príncipe, sem a anulação da esfera própria de competência.
Quanto à realidade na
colônia, fácil depreender que aqui vigorava também uma forma de 'patrimonialismo',
observando-se, claramente, a apropriação 'privada' do “âmbito público” – se assim
se pode dizer –; melhor: a propriedade compartilhada da colônia pelos
donatários das capitanias hereditárias. Um sistema patrimonialista não permite
distinção entre o público e o privado; é um sistema de dominação em que a
riqueza vai sendo distribuída como patrimônio pessoal do governante. Comumente
aparece acompanhado de uma estrutura de relações clientelistas, já que a
riqueza pode ser distribuída de maneira não equitativa em troca de prestações,
favores ou apoio político.
O movimento do dinheiro privado para o bolso das autoridades
públicas por meio dos órgãos públicos que estas ocupavam se combinava com o
movimento inverso do dinheiro privado das autoridades públicas em benefício dos
interesses privados dos eleitores como recompensa pela lealdade política. Nesse
movimento de riquezas privadas por canais públicos houve sempre uma clara
confusão entre o âmbito público e o privado.
O sistema sociopolítico
viciado que se constituiu no Brasil à época da colônia recebeu, de fato, uma
roupagem moderna após a Independência. Mas isso não significa, como foi dito,
que a nova estrutura formal implicasse uma transformação substancial no
sistema. Em verdade, não houve modificação na estrutura real nem na cultura
política vigente, as quais permitiam que se manejasse o Estado com se
propriedade privada fosse.
No séc. XIX, após a
renúncia de Dom Pedro I, foi criada uma Guarda Nacional, que mais não era senão
o conjunto das antigas companhias civis, que assumia, então, uma conformação
militar, hierarquizada, passando a submeter-se ao Ministério da Justiça. Desse
modo, surgiram os coronéis, membros das oligarquias locais que angariaram
postos de comando na Guarda Nacional. De tal maneira, enquanto o poder se
centralizava, era reconhecida a autoridade das oligarquias locais. Esse sistema reforçou, ao conceder título de
coronel a chefes locais, a pessoalização da política, sendo o coronelismo uma
versão brasileira do caciquismo.
Patrimonialismo, clientelismo e coronelismo aparecem, dessa
forma, como elementos recorrentes da
vida sociopolítica brasileira, que resultou historicamente marcada pelo trato
da ‘coisa pública’ como ‘bem privado’, como também pela política do favor. Tal
realidade fomentou, ao longo da história, a prática de corrupção, conforme
demonstra SÉRGIO HABIB em sua obra Brasil: quinhentos anos de corrupção.
A comparação com o processo de colonização da América do
Norte é inevitável. Veja-se, sobre isso, o que comenta RAYMUNDO FAORO: O inglês
fundou na América uma pátria, o português um prolongamento do Estado. (...) Os
ingleses transmigrados formaram sua própria organização política e
administrativa, esquecidos do superado resíduo feudal. Não os contaminou a presença
vigilante, desconfiada e escrutadora, do funcionário reinol: por sua conta,
guardadas as tradições de “self-government” e de respeito às liberdades
públicas, construíram as próprias instituições. A Inglaterra dispunha, no
momento da transmigração, de um arsenal de homens e mulheres acostumados ao
duro trabalho agrícola, sem que o desdém do cultivo à terra pela próprias mãos
os contaminasse, desdém aristocrático e ibérico (Os donos do poder: formação do
patronato político brasileiro).
As características de nosso tempo
Manobras do caciquismo na Constituinte
Foi proposto, para o texto da nova Carta Magna(promulgada em
1988), nos debates da Assembleia Nacional Constituinte, que “a publicidade dos
atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos” deveria ter “caráter
educativo, informativo ou orientação social, dela não podendo constar nomes,
símbolos ou imagens" que caracterizassem "promoção pessoal de autoridade ou
servidores públicos” - a título de salvaguarda
saneadora destinada a restaurar a dignidade do Serviço Público. Propostas de
supressão, entretanto, lograram êxito, encaminhadas
principalmente pelos governadores de São
Paulo(Orestes Quércia) e Minas Gerais(Newton Cardoso), ambos do PMDB,
pressionando os parlamentares de seus Estados, integrantes do bloco constituinte
majoritário, para a retirada, na redação final do documento, o inciso de cunho moralizador.
O processo de impeachment do presidente Fernando Collor de
Mello, em 1992 parecia inaugurar uma nova época, em que os atos de corrupção
das autoridades enfrentariam a responsabilização rigorosa do Estado de Direito.
O seu afastamento apontava para um novo horizonte de possibilidades,
prognosticando o amadurecimento da cultura política diante da elevação do grau
de consciência e exigência da população. E se os dois mandatos de FERNANDO
HENRIQUE CARDOSO (1995-2002) não se notabilizaram pelo combate efetivo à
corrupção, resulta que parte dos votos não carreados a seu candidato(José
Serra) na sucessão ressentiram-se justamente por não se terem concretizado, no
período tucano, as esperanças amealhadas.
Por tudo o que foi dito, forçoso concluir que o Brasil sofre de um índice elevado de
corrupção cravado em profundas raízes histórico-culturais de sementes ibéricas
e estimulada pelas deletérias ‘facilidades’ do mundo globalizado,
caracterizando-se como um caso paradigmático na contemporaneidade.

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