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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Cunha  &  Delcídio: de novo, dois tratamentos

A disposição do PGR Rodrigo Janot em apresentar denúncia contra Delcídio do Amaral no Supremo Tribunal Federal leva a uma pergunta obrigatória: e Eduardo Cunha?


: Os jornais já trazem, hoje, que o senador -- preso no exercício do mandato, numa decisão vetada pela Constituição -- pode ser condenado a uma pena superior a quatro anos de prisão.

Vamos combinar. Quem acusa Delcídio de fazer um plano para obstruir a Justiça, a partir de um episódio que ainda precisa ser investigado e esclarecido, não pode ficar de braços cruzados diante da reação de Eduardo Cunha à decisão do Partido dos Trabalhadores em exigir que responda no Conselho de Ética pelas contas na Suíça. 

Não há como negar que o presidente da Câmara tornou-se um perigo público para a democracia e que sua forma de “ obstruir a Justiça” é muito mais grave do que uma promessa de mesada de R$ 50.000 para a família de um corrupto confesso como Nestor Cerveró, certo? Fuga para o Paraguai? Viagem de Falcon? 

Se a acusação contra Delcídio se baseia numa gravação, sempre complicada, cujas circunstâncias ainda não foram totalmente esclarecidas, nem todas as dúvidas foram sanadas, a ação de Cunha fala por si.

Seu caso foi investigado em profundidade pelo ministério público, do Brasil e da Suíça. As conexões e ilegalidades estão estabelecidas. Várias testemunhas explicam a origem do dinheiro, contam casos, dão detalhes. Os fatos são coerentes. As contas secretas foram rastreadas e não há dúvida sobre sua origem. 

Lembrando que a mais frequente das razões para se pedir a prisão preventiva de um cidadão é a ameaça a ordem pública, ninguém seria capaz de negar o alto nível de periculosidade assumido pelas ações de Eduardo Cunha. Você pode achar, erradamente em minha opinião, que há algum fundamento para se investigar a presidente.

Mas nenhuma pessoa pode negar que Eduardo Cunha só entrou em ação contra Dilma quando se tornou claro que esta era uma forma de tumultuar o exame de seu caso no Conselho de Ética. Ao fazer isso – mesmo que pudesse ter razão, o que não é o caso – ele está impedindo a Câmara e a Justiça de encontrar mais provas contra ele.

O plano é confundir, adiar, atrasar, adiar de novo, de novo, de novo...para ver se alguma coisa muda na paisagem política. Será impossível pensar numa recompensa por serviços prestados pela manobra contra a presidente?

Delcídio foi preso e encarcerado. Até hoje, não foi ouvido por seus pares, questão que tem incomodado o senador João Alberto, presidente da Comissão de Ética do Senado, que já demonstrou interesse em convocar Delcídio para prestar depoimento quando seu caso for discutido. " Eu votei contra a prisão porque acho que ele tem o direito de defesa," diz João Alberto, um senador maranhense orgulhoso pela disposição em dizer o que pensa.

"Já perdi votação em que eu era o único voto contra todos no plenário. Não me importei. No fim, um colega me abraçou e disse que eu tinha uma coragem que ele não teve."

João Alberto acha, por exemplo, que há pontos a favor de Delcídio. Um deles envolve a questão que muitos apontam como a mais grave da conversa gravada. . João Alberto recorda que, enquanto o senador disse que seria capaz de encontrar ministros do Supremo e convencê-los a dar um habeas corpus a Cerveró, os próprios juízes mencionados negaram peremptoriamente que essa conversa tenha ocorrido. "Essa negativa é boa para a defesa," diz João Alberto. " Mostra que o Delcídio não estava falando a verdade quando sugeriu que poderia ter influência sobre o Supremo."

Enquanto Delcídio cumpre um silêncio forçado, Cunha faz o que quer, diz o que quer, quando quer. Não acho que deva ser preso.

Só questiono por que as injustiças -- como uma prisão que não atende requisitos constitucionais -- sempre ocorrem contra um lado só.

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