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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Rede da dignidade contra o golpe e a vigarice

O governo, emparedado pela lógica conservadora, paradoxalmente, passou a ter escolhas. Como disse a própria Dilma, 'não era mais possível viver chantageada'...



Saul Leblon                     




Lula Marques
   

A história apertou o passo e quando sacode a poeira ela derrama transparência por onde passa.
 
A retaliação de Eduardo Cunha contra o governo e contra o PT guarda semelhanças com uma cena recorrente da crônica policial.
 
Enredado em evidências grotescas de ilícitos e falcatruas, o presidente da Câmara sacou um processo de impeachment contra a Presidenta Dilma, depois que o PT –graças à corajosa decisão de seu presidente, Rui Falcão, determinou que o partido não acobertasse o delinquente no Conselho de Ética.
 
Cunha age como o sequestrador que saca o revólver e o coloca na cabeça do refém, exigindo salvo conduto para si e para o malote de dinheiro.
 
Eduardo Cunha aposta que os comparsas do lado de fora lhe darão cobertura na fuga cinematográfica para frente.
 
Resultado de imagem para Imagens de Dilma falando contra CunhaTalvez tenha razão a julgar pela adesão de pronto de tucanos, como os rapinosos Aécio e Serra, por exemplo.
 
Outros, aqueles que entendem a política como oportunismo, endossarão igualmente o meliante em nome da honradez.
 
Ou não é essa –há meses—a especialidade do colunismo isento na sua seletiva campanha anti-corrupção?
 
A cumplicidade desses comparsas está precificada no metabolismo político brasileiro desde 2005/2006.
 
Não se espere grandeza de onde impera a mediocridade básica das elites latino-americanas.
 
Aquela que sonega ao próprio país e ao povo o direito e a competência para se erguer como nação justa e soberana.
 
O vento implacável da história desnuda em 2015 os novos atores do velho enredo em cartaz em 1932, 1954, 1962, 1964, 1989, 2002, 2005, 2006, 2010 e 2014.
 
Com um agravante: há um pedaço da sociedade que se descolou definitivamente do país e tem como pátria o capital flutuante que não quer pertencer ao destino de nenhum povo.
 
Seu interesse e visão de mundo, portanto, são imiscíveis com a ideia de um regime do povo, para o povo e pelo povo.
 
E isso não é retórica, mas uma ameaça: eles consideram que a Constituição de 1988 prometeu mais do que é justo o dinheiro grosso ceder e que o PT teima em lembrar.
 
São aliados naturais do assaltante que ameaça agora um  mandato subscrito por 54 milhões de brasileiros.
 
Daí não sai nada a não ser golpe e dilapidação.
 
A mudança terá que vir do outro lado.
 
O lado do país que se avoca o direito de enxergar na justiça social a finalidade e o motor da luta pelo desenvolvimento brasileiro. E que tem na democracia a principal garantia de que esse processo é crível e consistente porque negociado, repactuado e legitimado nas diferentes manifestações de liberdade de um povo --nas lutas, nos escrutínios e nas mobilizações históricas de uma nação.
 
Estamos diante de um desses momentos que Celso Furtado denominava de ‘provas cruciais de uma nação’.
 
É, sobretudo, no caso brasileiro, a hora da verdade para as forças progressistas.
 
Cabe-lhes superar o empate corrosivo que paralisa a sociedade e desacredita a democracia.
 
Trata-se de vencer a prostração e o sectarismo, fazendo da mobilização contra o golpe o impulso que faltava para uma repactuação do país em torno dos interesses majoritários de seu povo.
 
Lideranças políticas e sociais não podem piscar.
 
O enclausuramento ideológico, o acanhamento organizativo e a indiferenciação, diante  da qual a juventude não se reconhece e a militância se recolhe-- devem ser dispensados de uma vez por todas.
 
Que ninguém se iluda: o apoio ao impeachment tem por trás um projeto econômico devastador
 
Nele não cabem as urgências e direitos da maioria da população brasileira.
 
Um notável volume de investimentos é requerido nesse momento para adequar a logística social e a infraestrutura às dimensões de uma nação que incorporou milhões de pobres ao mercado de consumo nos últimos anos.
 
Agora lhes deve a cidadania plena.
 
O novo giro da engrenagem terá que ocorrer num momento paradoxal.
 
Uma tempestade perfeita cobra respostas em várias frentes: prover a infraestrutura, combater a inflação, resgatar a industrialização, dar progressividade ao sistema tributário, ajustar o câmbio, modular o consumo.
 
Tudo junto e com a mesma prioridade.
 
Ao mesmo tempo, porém, o labirinto encerra a oportunidade histórica de inovar  metas e métodos.
 
A plataforma do arrocho, com a qual o conservadorismo capturou o governo  --e agora pretende concluir o assalto tomando-lhe o mandato,  envelheceu miseravelmente ao escancarar  sua incapacidade  para ir além de uma recessão destrutiva.
 
PIB, emprego, investimento e consumo despencam sob o timão de um ajuste que desajusta o bolso do povo pobre e agrava as contas fiscais da nação.
 
O interesse conservador que antes pretendia usar o governo para escalpelar as ruas, subtraindo-lhe conquistas e recursos, agora quer usar as ruas e o impeachment para derrubar o governo.
 
A bipolaridade reflete a ansiedade típica de quem sabe que tem pouco tempo porque aquilo que a rua exige e espera colide com o que o mercado pretende.
 
Quem dará coerência ao desenvolvimento brasileiro nessa encruzilhada?
 
Antes turva, a resposta emerge límpida após o assaltante colocar a arma na cabeça do refém nesta tarde da terça-feira, 2 de dezembro de 2015.
 
A nova coerência macroeconômica terá que ser buscada na correlação de forças redesenhada pela divisão entre os que se alinharão na cumplicidade ao chantagista e os que vão se juntar ao governo para ampliar o espaço  de um novo contrato de crescimento para a nação brasileira.
 
Emparedado pela lógica conservadora o governo Dilma, paradoxalmente, passou a ter escolhas.
 
Resultado de imagem para Imagens de Dilma falando contra CunhaComo disse a própria Presidenta, em desabafo, ’não era mais possível viver chantageada’.
 
Dilma deve, sim, negociar. Com o Brasil que trabalha e quer trabalhar. Com o capital que produz e quer produzir.
 
Isso define uma límpida conduta para as próximas horas, os próximos dias, meses e, sobretudo uma próxima reforma ministerial definidora de uma verdadeira governabilidade, com o direito de recorrer ao povo para construir o passo seguinte do crescimento.
 
O bônus não autoriza o conjunto das forças progressistas a adotar a agenda da fragmentação suicida.
 
O discurso cego às interações estruturais é confortável . Mas leva ao impasse autodestrutivo e à inconsequência histórica.
 
A responsabilidade de interferir num processo histórico pressupõe a adoção de balizas que impeçam o retrocesso e assegurem coerência às mudanças.
 
O jogo é pesado.
 
Avançar à bordo da composição de forças que delimitou a ação progressista até aqui tornou-se cada dia mais penoso.
 
Esgotou-se um capítulo.
 
Não apenas por conta da saturação de um ciclo econômico.
 
Mas também porque se descuidou de prover a sociedade de canais democráticos para viabilizar o passo seguinte do processo.
 
Faltava a locomotiva da história apitar outra vez para esticar os limites do possível na repactuação do novo capítulo do crescimento brasileiro.
 
Foi o que o assalto à mão armada de Cunha desencadeou nas últimas horas.
 
A presidenta Dilma viu o bonde passar e não hesitou.
 
 
Antes dela, Rui Falcão, Pimenta e outros tiveram a coragem de rechaçar o chantagista e alinhar o PT  ao clamor dos milhões de brasileiros que não aceitam mais compactuar com um sistema político que se tornou um biombo desmoralizado do poder econômico, a serviço de banqueiros e bandidos.
 
Ao assumir o risco de uma represália que se confirmou, o PT indiretamente reaproximou-se dos que entendem que a soberania popular é  o único impulso capaz de harmonizar os conflitos e sacolejos de uma transição de ciclo de desenvolvimento.
 
O tempo urge.
 
O assalto conservador ao mandato de Dilma  joga uma cartada de vida ou morte contra o relógio político.
 
À medida que apodrece a reputação de seus centuriões, e os savorolas da ética entram em combustão explosiva, restou-lhes apostar tudo no estreito espaço de tempo entre a desmoralização absoluta e a capacidade residual de articular o golpe.
 
A coragem de Dilma e do PT, a solidariedade do PSOL logo na primeira hora da escalada, o levante maciço nas redes sociais ensejam esperança e legitimidade.
 
Em 1962 Brizola opôs ao golpe contra Jango uma bem-sucedida mobilização nacional liderada pela Rede da Legalidade.
 
Que Lula, Luciana, Boulos, Stédile, Vagner Freitas, intelectuais, estudantes, empresários produtivos, personalidades e democratas em geral se unam e se organizem.
 
Essa é a hora e ninguém fará isso por nós.
 
Que Dilma recorra diariamente, se preciso, à cadeia nacional para afrontar o monólogo golpista e liderar a resistência nacional.
 
É o seu mandato que está em jogo.
 
E que disso nasça uma gigantesca rede da dignidade contra o golpe e a vigarice.
 
 
Com ela, e somente com ela, emergirá o impulso que falta para abrir passagem ao país que o Brasil poderia ser, mas que ainda não é –e que interesses poderosos não querem que venha a ser.

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