Esse
homem não pode ser candidato
Se for, é capaz de vencer; se
vencer, será impossível impedi-lo de assumir; se assumir, pode fazer outro grande
governo...'
Saul Leblon
Não vai ter golpe. A receita do impeachment secou
no forno tucano. A crise mundial escancarou a fraude que atribuía ao PT o
desmanche do Brasil. Dilma afrouxou a camisa de força do arrocho com dano
inferior ao imaginado. Pode e deve ir além, na frente econômica e política. A
reativação do CDES mostrou que é possível arrastar uma parte expressiva do PIB
para fora do golpe. Não é o único broto da frente política necessária à
superação da encruzilhada do desenvolvimento, mas é um passo na retomada da
iniciativa para além da defensiva e da prostração.
‘Esse homem não pode ser candidato; se
for é capaz de vencer; se vencer será impossível impedi-lo de assumir; se
assumir pode fazer outro grande governo.’
Essa é a versão de hoje para o que
dizia Lacerda em junho de 1950, quando tentava igualmente abortar a candidatura
de Vargas à presidência da República: ‘Esse homem não pode ser candidato; se
candidato não pode ser eleito; se eleito não deve tomar posse; se tomar posse
não deve governar’.
É o nome da pauta interativa que
conectou as redações a um pedaço do judiciário.
De onde virá a pá de cal? Do
pesqueiro que ele frequenta? Da canoa de alumínio de R$ 4 mil reais? Do
apartamento que, afinal, não comprou? De um delator desesperado? De alguém
coagido pela República do Paraná, disposto a qualquer coisa para proteger
familiares retidos e ameaçados? Eles não vão parar. A
Lava Jato escuda-se em razão meritória para agir como braço partidário. O
golpismo os incentiva, a mídia sanciona e se lambuza. Só a rua.
Desfrutáveis rapazes e moças
denominados ‘jornalistas investigativos’ inscrevem-se nas mais diferentes
façanhas para antecipar o desfecho, antes que alguma resistência
aborte o cronograma. A piada venezuelana sobre a escassez de
pasta de dente, divulgada como noticia pelo UOL, mostra a tensão reinante entre
rigor e furor. A mesma sofreguidão fez a ênfase do delator Paulo
Roberto Costa em inocentar Marcelo Odebrecht transformar-se em sutil
incriminação do empresário na degravação para Moro. ‘Isso não
vem ao caso’ – diria FHC.
Nenhum caso vem ao caso quando associa
tucanos a eventos em que o interesse público se subordina ao apetite
privado. Procuradores procuram –produzem?-- febrilmente a pauta da
semana, auxiliados por redações interativas. A narrativa geral é
adaptada ao sotaque de cada público. Desde a mais crua, tipo JN, às colunas
especializadas em conspirar com afetação pretensamente macroeconômica ou
jurídica.
O assalto final será indolor à
matilha? Eis a pergunta política de resposta mais cobiçada nos dias
que correm. Depende muito do discernimento das lideranças nascidas
dessa costela, e até mesmo –ou quem sabe, principalmente- de algumas
referenciadas a marcos históricos que vão além dela. São hoje as
mais mobilizadas.
Amanhã serão as primeiras atingidas, se
a ‘macrização’ do Brasil for bem sucedida.
Acuado como está e limitado pelo erro
histórico de um ciclo que promoveu a mobilidade social sem correspondente
organização política, Lula é refém da avaliação que o conjunto da esquerda
fizer de sua importância para o futuro da democracia social no país. É
tão ou mais refém disso do que do sentenciamento conservador. Neste já foi
condenado. Mas a rua pode salvá-lo.
‘Ah, mas Lula foi ultrapassado pelo
avanço da luta popular?’ É um paradoxo: se avançamos tanto, como é
que eles estão em sulforosa ofensiva por ar, terra e mar? ‘Culpa do PT.’ Na Venezuela
também? Na Argentina, na Europa...? Há uma recidiva da crise
mundial, cuja extensão e profundidade o PT subestimou.
Em Portugal, uma esquerda que conseguiu
maioria parlamentar, acaba de perder no primeiro turno presidencial para a
direita. A esquerda portuguesa resolveu ir ás urnas dividida. Cada
qual inebriada de sua autossuficiência para enfrentar a desordem mundial do
capitalismo.
Como pretendemos caminhar para
2018? A pergunta vale para o governo, para o PT e para as forças que
legitimamente se evocam à esquerda do PT. O ciclo iniciado em 2003
tirou algumas dezenas de milhões de brasileiros da pobreza; deu mobilidade a
outros tantos milhões na pirâmide de renda. Foi inconcluso porque
atribuiu às gôndolas do supermercado a tarefa de promover o salto de
consciência que mudaria a correlação de força no país.
A inclusão foi tão expressiva, porém,
que sob a cortina de fogo impiedosa do monopólio midiático, há quase uma
década, acuado, ferido, enxovalhado noite e dia, sem espaço de resposta, Lula
ainda figura como o nome que parte com 25% dos votos nas sondagens da nova
corrida presidencial. Aécio e Marina, teoricamente o suplantariam
numa quase certa aliança no segundo turno.
Mas a direita sabe que não é bem
assim. Com acesso diário à tevê que hoje lhe é sonegada, ao rádio e
ao debate num cenário econômico que dificilmente será tão ruim quanto o atual,
as alardeadas dianteiras dos seus principais adversários podem derreter junto
com o ‘crime’ de frequentar um pesqueiro em Atibaia, com a canoa de preço
equivalente ao de uma carretilha das disponíveis nos iates de alguns de seus
críticos, e com o ‘tríplex’ que, afinal, não lhe pertence. Por isso
é preciso liquidar a fatura agora, na janela de oportunidade entre o vácuo
orgânico da militância e a incerteza relativa a 2018.
Vargas foi o que são líderes nacionais
populares de cada tempo concreto: seres contraditórios de carne e osso,
exatamente por isso magnéticos na personificação de um projeto de
desenvolvimento em que o vórtice selvagem do capital passa a ser domado pelas
rédeas dos interesses sociais organizados. Vem de Varoufakis, o
ex-ministro da Fazenda da Grécia, a preciosa síntese do que está em jogo num
mundo que é o avesso disso, capturado pela desregulação dos mercados: ‘Não
deixar nenhuma zona livre de democracia’.
Até onde a sociedade pode ir por esse
caminho? Até onde a correlação de forças permitir a democratização de todas as
instâncias de poder na sociedade. Lula tem seu espaço nesse
enredo. Em abril de 1953 uma parte da esquerda brasileira
considerava que Vargas não tinha mais.
Simultaneamente uma ciranda de ataques
descomprometidos de qualquer outra lógica que não a derrubada de um projeto de
desenvolvimento soberano sacudia o entorno do governo que criara a Petrobras, o
BNDES e uma política de fortalecimento do mercado interno com forte incremento
do salário mínimo.
O clima pesado das acusações e ofensas
pessoais atingia Getúlio e sua família de forma virulenta. Lutero,
irmão do Presidente, era seviciado por manchetes garrafais que o tratavam
como ‘bastardo’ e "ladrão". A imagem veiculada do ministro
do Trabalho, João Goulart, era a de um cafajeste, um "personagem de
boate". Lembra algo?
A dramaticidade do suicídio político
mais devastador da história iluminaria o discernimento popular gerando revolta
diante do ódio golpista que tirou a vida de Vargas. Porta-vozes
da oposição a Getúlio foram escorraçados nas ruas do Rio; uma multidão
consternada e enfurecida cercou e depredou a Rádio Globo que saiu do ar;
veículos da família Marinho foram caçados, tombados, queimados nas ruas da
cidade. Para Carlos Lacerda não sobrou um centímetro de chão firme: o
"Corvo" foi recolhido a bordo do Cruzador Barroso, distante da costa.
A esquerda que dispensava a Vargas o
tratamento dado a um cachorro morto, teve que reinventar a sua agenda com a
bicicleta andando. Quase sessenta e dois anos depois do tiro que
sacudiu o país, a pressão atual do cerco conservador permite aquilatar a
virulência daquele período. O Brasil está de novo sob o tropel da
mesma cavalaria. Com os mesmos cascos escoiceando a nação e
reputações.
O mesmo arsenal para alvos e objetivos
correlatos.
Persiste, enfim, o cerco ao
Catete. A qualquer Catete dentro do qual políticas públicas tenham
buscado pavimentar mais um trecho da estrada inconclusa que leva à construção
de uma democracia social na AL. Desta vez não haverá tiro para
alertar a esquerda brasileira. Mas caberá a ela escrever a carta
testamento para explicar o Brasil deixado aos que vierem depois de nós. A
ver.

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