segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

PCdoB celebrará centenário da Revolução Russa defendendo a democracia  com  base  popular

                                     
Neste 2017  o PCdoB (Partido Comunista do Brasil) comemora seus 95 anos de existência, e ao mesmo tempo celebra os 100 anos da Revolução Russa, que inaugurou a era do socialismo. 
Imagem da Revolução Russa
As atividades de comemoração tanto dos 100 anos da Revolução Russa quanto dos 95 anos do PCdoB exigem grandes esforços de planejamento, que devem ser iniciados desde já

Para comemorar estas datas históricas importantes, o PCdoB reafirmará seu papel em defesa da democracia, do pluralismo político e partidário. Junto a outras forças políticas defenderá uma reforma política que amplie a democracia, a participação do povo e assegure o direito de representação parlamentar das diferentes correntes políticas e ideológicas. Ao mesmo tempo, reafirmará o seu Programa Socialista como alternativo para o desenvolvimento do Brasil. E saudará a Revolução de Outubro.


Íntegra da nota do Comitê Central 
do Partido Comunista do Brasil...   

Comemorar os 100 anos da Revolução Russa

e os 95 anos do PCdoB

Em 2017 o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) comemora 95 anos de existência quando, no mesmo ano, se enaltecem os 100 anos da Revolução Russa, que inaugurou a era do socialismo. Pela primeira vez os trabalhadores chegaram ao poder e iniciaram a abertura do caminho para uma nova sociedade. Os ecos daquele acontecimento percorreram quase todo o século 20, uma torrente de mudanças revolucionárias que chegou a vastas regiões da Terra. O PCdoB também é filho dessa epopeia revolucionária e expressou, nesses 95 anos, o ideal de uma nova sociedade socialista, intervindo, de diferentes formas, no processo histórico brasileiro, sempre erguendo as bandeiras da democracia, da soberania nacional e dos direitos dos trabalhadores e dos povos. Superando duras vicissitudes, os comunistas brasileiros marcaram as lutas populares no país, referenciados nos legados das experiências socialistas iniciadas na Rússia.

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Lenin fala ao povo em Moscou
O surgimento do socialismo em 1917, portanto, fez com que
 no
 Brasil e no mundo o progresso social avançasse, assumindo formas variadas conforme o tempo e a região. Foi, sem dúvida, o acontecimento mais importante do século 20 ao traçar um fio vermelho que percorreu cerca de oito décadas da história mundial e alimentou a esperança de um futuro melhor, sem opressões, explorações e misérias. Destaca-se de seu legado à humanidade, o papel decisivo na derrota do nazifascimo. Há, evidentemente, muitos aspectos nessa História que precisam ser avaliados com rigor crítico, e deficiências que certamente serão amplificadas pela máquina midiática do capitalismo em sua reiterada diatribe anticomunista. Como se sabe, a memória histórica é um dos terrenos fundamentais nos quais se desenvolve a luta ideológica de classe.

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Fundadores do Partido Comunista do Brasil:
25 de março de 1922, em Niterói-RJ
Pode-se dizer que o PCdoB tem feito esse exame com critérios rigorosos. Desde a débâcle soviética, que criou uma situação bastante desfavorável para as forças socialistas e revolucionárias, temos realizado esforços de compreensão do sentido profundamente contrarrevolucionário dessa derrota e de suas consequências para a humanidade. Concluímos que o mais efetivo resultado da débâcle é a ofensiva, em toda a linha, do imperialismo – particularmente o estadunidense –, recrudescida desde a última década do século 20. Às portas do novo século, os ideólogos da "nova ordem mundial" advogaram o fim da História e a morte, a caducidade do marxismo e a impossibilidade de novas revoluções proletárias.

A contrarrevolução neoliberal triunfou, nessa quadra da História, sobre seus adversários históricos: os comunistas, os socialistas e demais forças progressistas. Um dos sinais mais evidentes desta derrota foi o rápido deslocamento à direita de boa parte dessas forças políticas, que abandonaram suas tradições, seus símbolos e programas, rejeitando em bloco a rica tradição do movimento comunista e revolucionário internacional. O PCdoB, pelo contrário, considera que a experiência soviética, apesar dos erros, cumpriu papel positivo na História, com rico legado à humanidade. Buscamos tirar lições e lutamos pelo socialismo, mais do que necessário diante do agravamento da crise do capitalismo. 

O mundo entrou no século 21 mais desigual e mais injusto. Não tardou para que a globalização neoliberal, regida pelo rentismo, conhecesse crises cada vez maiores e de efeitos futuros incalculáveis. A atual política expansionista do capitalismo não podia abrir mão dos seus velhos métodos e receitas: lançar o ônus da crise sobre os ombros dos trabalhadores e dos povos e empreender provocações militares e guerras de conquista. Provocou, igualmente, um complexo processo de degeneração ideológica, com o crescimento de correntes de extrema-direita e de ideias fascistas, expressões de reacionarismo que estavam na defensiva desde a vitória soviética sobre o nazismo. Eis o cenário no qual o centenário da Revolução Russa será comemorado.

No Brasil, os efeitos da crise se traduzem numa ofensiva das forças conservadoras, agravada pelo golpe de Estado jurídico-parlamentar que destituiu a presidenta Dilma Rousseff. Inaugurou-se um novo ciclo político em que as classes dominantes desencadeiam um processo de desmonte da democracia, dos direitos sociais e da soberania nacional. Um período em que se busca desmoralizar e criminalizar a militância de esquerda, no qual a própria atuação institucional-parlamentar do PCdoB, conquistada em 1985, está ameaçada por uma reforma política antidemocrática.

O PCdoB comemorará seus 95 anos defendendo a democracia em nosso país, o pluralismo político e partidário, se opondo, em conjunto com outras forças progressistas, à tentativa dos conservadores de transformar o Congresso Nacional, e demais casas legislativas, em espaços reservados unicamente a algumas legendas, em sua maioria reacionárias. Defenderá uma reforma política que amplie a democracia, a participação do povo e assegure o direito de representação parlamentar das diferentes correntes políticas e ideológicas. Ao mesmo tempo, reafirmará o seu Programa Socialista como alternativo para o desenvolvimento do Brasil. E saudará, como já dito, a Revolução de Outubro.

O PCdoB conclama sua militância a se envolver na preparação das comemorações do centenário da Revolução Russa, enfrentando o discurso conservador e mesmo os equívocos de correntes anticomunistas de esquerda. No ano próximo, na cidade de São Paulo, o Comitê Central e a Fundação Maurício Grabois (FMG) promoverão um seminário tratando do legado e das lições da Revolução. Durante a realização do nosso 14º Congresso Nacional, previsto para novembro, serão realizadas novas homenagens. Ao longo do primeiro semestre a FMG lançará livros sobre o tema e a imprensa partidária deverá publicar artigos, notícias e ensaios.

No centro das atividades devem estar a denúncia do caráter anticivilizatório do capitalismo, a reafirmação do papel da Revolução e a atualidade da luta pelo socialismo. São atividades que devem ser realizadas por iniciativas do Partido ou em parcerias com organizações democráticas, populares e, especialmente, universidades. Devemos incentivar a realização de debates, seminários, exposições fotográficas, exibições de filmes e edição de publicações. Esse esforço, pela importância da data, não deve ficar restrito aos eventos nacionais.

Para a comemoração do aniversário do PCdoB haverá um ato nacional centralizado, mas todos os comitês partidários devem realizar atividades em todo o país, com a participação das forças do campo democrático. As atividades de comemoração tanto dos 100 anos da Revolução Russa quanto dos 95 anos do PCdoB exigem grandes esforços de planejamento, que devem ser iniciados desde já.

CRIOLO PEDE ‘DIRETAS JÁ’ NO PRIMEIRO  MINUTO  DE  2017   



Show do rapper se transformou em protesto na capital federal;
assista ao vídeo, abaixo...

O Reveillon em Brasília contou com um protesto do rapper paulistano Criolo. Na festa realizada nesse sábado (31) no Museu da República, o cantor foi responsável pela contagem regressiva para a chegada de 2017.
Durante a queima de fogos, o show do artista exibiu um telão com a frase ‘Diretas Já’, como forma de apelo por eleições diretas para presidente do Brasil.
Conhecido por defender suas opiniões políticas, Criolo usa com frequência suas apresentações, dentro e fora do país, para manifestar indignação diante do golpe de Estado que levou Michel Temer ao poder. Em seguida, o evento de fim de ano na capital federal foi encerrado pela funkeira feminista MC Carol.

domingo, 1 de janeiro de 2017


Pagando o pato
O aumento da confiança com o impeachment não melhorou a economia, descobre a Fiesp...

Luiz Gonzaga Belluzzo          CartaCapital
Everton Amaro/Fiesp
FIESP
A sede da Fiesp, na Paulista, aglutinou os patos do impeachment em torno do pensamento mágico do fora Dilma, mas "a retomada" virou pataquada...
Depois das exibições do pato na Avenida Paulista para “animar” o impeachment de Dilma Rousseff, a Fiesp descobriu quem está pagando as façanhas do próprio anatídeo. No popular, as empresas brasileiras estão pagando o pato. Assim o demonstra o excelente e certeiro estudo do Departamento de Competitividade e Tecnologia da federação que congrega os industriais paulistas.
Já na abertura, o estudo desfia as razões das graves dificuldades financeiras vividas pelas empresas:
“A melhora da confiança que vimos com a mudança de governo não está se transformando em melhor desempenho da economia. A expectativa de crescimento do PIB está caindo, tanto para este ano quanto para o próximo. Para 2016, o mercado esperava que o PIB fosse crescer -3,17%, mas agora já espera -3,44%. Para 2017, a expectativa de crescimento passou de 1,34% para 0,96%”.
As reiteradas decepções das expectativas e as frustrações da confiança, diz o documento, “se devem ao desempenho ainda muito ruim de variáveis como vendas no varejo, com queda de 6,6% nos 12 meses encerrados em setembro, e produção industrial, que diminuiu 7,9%, nos 12 meses encerrados em outubro”.
 A derrocada nas vendas do comércio e na produção industrial, prossegue o estudo, “se deve ao desempenho ainda muito ruim de variáveis como a taxa real de juros básica, que passou de 3,5% ao ano em janeiro para mais de 9% em novembro.
Isso acontece porque a inflação está caindo, enquanto a Selic só diminuiu 0,25 ponto porcentual. O crédito às empresas caiu 12,8% nos 12 meses encerrados em outubro e o crédito às famílias, 3,4%. Os investimentos declinaram 13,5% nos 12 meses encerrados em setembro”. 
Segue o enterro: além de seus efeitos negativos sobre o investimento, “a alta na Selic tem efeito perverso sobre o spread e a inadimplência, que, desde janeiro de 2014, aumentou 33%, enquanto o spread cresceu 81%, ou seja, mais do dobro.
A partir de 2015, os bancos começaram a aumentar os spreads para se provisionar contra a inadimplência, que, até então, era estável. O aumento dos spreads causou o próprio crescimento da inadimplência, concretizando uma espécie de profecia autorrealizável”.
Tradução livre: as decisões “racionais” do ponto de vista microeconômico prestam homenagem às falácias de composição que infestam os modelos macroeconômicos. O que parece bom para o ‘agente individual’, seja ele empresa, banco ou consumidor, é danoso para o conjunto da economia. 
 As investigações da Fiesp chegam a conclusões semelhantes àquelas que apresentamos há poucas semanas. Dizíamos então: em fevereiro de 2013, o Boletim Focus, que reúne as projeções dos “principais economistas do mercado”, previa crescimento do PIB de quase 4% ao ano para 2014, 2015 e 2016.
Após o crescimento de 0,5% em 2014, a economia do País caminha para o segundo ano consecutivo de retração de quase 4%.
O desempenho pífio de 2014 instigou o “consenso” em torno das políticas econômicas que deveriam ser adotadas tempestivamente. Depois de conceder isenções fiscais para grandes grupos econômicos – a turma do pato –, a política econômica brasileira deu um choque de tarifas, dobrou a taxa de juros e perpetrou um ajuste fiscal que concentrou cortes em investimentos públicos.
O mergulho depressivo iniciado entre o crepúsculo de 2014 e a aurora de 2015 pode ser apresentado como um exemplo do fenômeno que as teorias da complexidade chamam de “realimentação positiva” ou, no popular, “quanto mais cai, mais afunda”.
Gráfico
A interação entre o choque de tarifas, a subida da taxa de juros, a desvalorização do real e o corte dos investimentos públicos determinaram a elevação da inflação em simultâneo à contração do nível de atividade e daí à restrição do crédito. O encolhimento do circuito de formação da renda levou, inexoravelmente, à derrocada da arrecadação pública.  
A combinação entre choques negativos de oferta e seus efeitos sobre a renda agregada da economia suscitou um processo de “realimentação positiva” decorrente das reações de autoproteção das empresas, bancos e consumidores, estes ameaçados pelo desemprego. 
As fábricas se encharcam de capacidade ociosa. Endividadas em reais e em moeda estrangeira, as empresas são constrangidas a ajustar seus balanços diante das perspectivas de queda da demanda e do salto no serviço da dívida.
Para cada uma delas era racional dispensar trabalhadores, funcionários, assim como, diante da sobra de capacidade, procrastinar investimentos que geram demanda e empregos em outras empresas. Para cada banco individualmente era recomendável subir o custo do crédito e racionar a oferta de novos empréstimos. 
Os consumidores, bem, os consumidores reduzem os gastos. Uns estão desempregados e outros, com medo do desemprego. Assim, o comércio capota, não vende e reduz as encomendas aos fornecedores, que acumulam estoques e cortam ainda mais a produção.
As demissões disparam. A arrecadação míngua, sugada pelo redemoinho da atividade econômica em declínio. Isso, enquanto a dívida pública cresce sob o impacto dos juros reais e engorda ainda mais os cabedais do rentismo caboclo.
Pedidos de “paciência” ou “controle da ansiedade”, em meio a celebrações de economistas pela queda do salário real, chocam-se com a realidade da vida das pessoas de carne e osso e denunciam a dissonância da narrativa da retomada da confiança com os movimentos da economia concreta. 
A confiança do empresário é a demanda e a do trabalhador, seu emprego. Ao redor do globo, governos buscam:
1. Dinamizar suas economias com baixas taxas de juro.
2. Parcerias com a iniciativa privada na coordenação e promoção de investimentos em inovações, à procura de protagonismo na nova revolução industrial.
3. Programas maiores e de longa duração na melhora da infraestrutura pública, os quais, nas palavras da The Economist, “dariam às empresas privadas uma maior confiança sobre a demanda futura e tornariam mais provável uma recuperação sustentada”.
A mídia brasileira espargiu a convicção da rápida recuperação do crescimento econômico, pois a confiança havia sido restabelecida e o hiato do produto ampliado. A crise purgaria rapidamente os excessos decorrentes dos “estímulos artificiais”. 

Xadrez do Hommer Simpson 
e  do  desmonte  nacional     

Luis Nassif                    
Nos últimos dias de 2016 tive dois contatos marcantes. Um deles, com um autêntico representante da ultradireita delirante. Outro, com um representante típico do Homer Simpson.

Vamos por partes.

Fomos apresentados à direita delirante por um amigo gozador, que juntou os três casais em uma feijoada. O sujeito era oftalmologista, estudara nos Estados Unidos, em uma universidade da qual não me recordo o nome, mas, segundo ele,  muito mais afamada que Harvard, tinha sido convidado a trabalhar em um órgão do governo norte-americano, muito importante, e do qual não me recordo o nome, e cometeu outros feitos expressivos, dos quais não me recordo a relevância.

Ele se informa em sites de ultradireita, não confia em nada do que sai na imprensa e acredita em tudo o que lhe dizem seus pares.

Quando elogiou minha origem libanesa, por ser uma raça pura, percebi que a conversa ia ser marcante. 

Ele é contra todas as raças impuras, diz que Donald Trump vai colocar as coisas nos eixos (sem jogo de palavras). Garantiu, sem pestanejar, que Michele Obama é transexual; que Barack Obama não é Barack Obama, mas um sujeito que se faz passar por Barack Obama. Trata os negros como macacos. E me passou a mais retumbante das revelações que, segundo ele, tem sido sonegada por toda a imprensa ocidental. Aliás, apostou comigo como não conseguiria publicar nem no meu blog a relevante informação de que não há mais peixes no Oceano Pacífico.E não adiantou argumentar que desastre desse tamanho não seria sonegado nem pelo Estadão, mesmo se fosse de responsabilidade do PSDB.

Pulemos para o simpático Homer Simpson, que me aborda no boteco de Poços.

Diz que os problemas no Brasil surgiram com o porto de Mariel, em Cuba. Levaram para lá todos nossos empregos e nossas divisas.

Tento explicar que a construção do porto envolve inúmeros materiais e equipamentos fabricados no Brasil, contratos com indústria mecânica, siderúrgica e muitas outras. Portanto, gerou muitos empregos no Brasil.

E ele: mas o dinheiro foi para fora.

Explico que não, que a obra será paga e os lucros reverterão para o Brasil, através da empresa construtora. 

E ele: não sei não. 

Pacientemente explico que se trata de exportação de serviço praticada por todas as nações, pela China, pelos Estados Unidos. Se não fosse bom, porque os grandes países disputariam mercado?

E ele, com a segurança de um procurador da Lava Jato: “Pode ser bom para a China e Estados Unidos, mas não para o Brasil”.

Aí desisto e, como no começo da conversa ele se apresentou como astrólogo amador, interrompo a conversa com minha saída favorita:

-- Eu não ouso discutir astrologia com você.

Ele entendeu, se despediu e foi embora. Educadamente, saliento.

O fenômeno da desinformação

Nos dois casos, a conversa – embora surreal – foi em bases relativamente educadas. No caso do direitoso, um conteúdo de uma violência extrema, mas dito socialmente em uma “conversa de brancos”. No Hommer Simpson, um senhor simpático, boa gente mesmo.

Mas o novo normal é a grosseria, o sujeito tratar sua opinião como um bem de raiz, dedicando a ela o mesmo cuidado obsessivo com que cuida das suas posses, seja o carro velho ou a casa a beira-mar. E reagindo agressivamente contra qualquer tentativa de tirá-lo da comodidade das suas verdades estabelecidas.

Na convivência social, um dos primeiros fatores de contenção é o conjunto de regras sociais  consolidadas que impõe um padrão de sociabilidade do restaurante granfino, ao boteco de família, da missa ao estatuto da gafieira.

Cada ambiente tem seu conjunto de regras e seus limites. O machismo e a homofobia estão restritos a ambientes machistas, onde é de mau tom defender transexuais. Mas, se saíssem fora da jaula, seriam coibidos por olhares de reprovação. Nos botecos, as mesas separavam os grupos por afinidade de opinião. Mas não havia interferência nas conversas, mesmo por parte de quem ouvisse e reprovasse.

Nos ambientes públicos, não era de bom tom o preconceito, a intolerância. Uma pitada de esquerda social dava até status intelectual. E havia um respeito (muitas vezes excessivo) pelo conhecimento técnico.

Todas essas barreiras caíram. Hoje em dia, a norma é a grosseria, a opinião fechada, intransponível como a muralha chinesa, em torno do senso comum mais primário ou da piração mais louca, como comprovaram meus dois interlocutores.

Quais os fatores que levaram o mundo a essa balbúrdia?

Os fatores de confusão

Há um conjunto de fatores muito similar ao que conduziu o Ocidente de fins do século 19 até a 2a Guerra:

Uma fase de grandes avanços científicos e tecnológicos que não resultaram em melhoria da condição de vida das populações, levando à descrença em relação ao pensamento científico, especialmente dos economistas.

Um financismo desvairado impedindo a consolidação das economias periféricas.

Dissolução de estados nacionais, guerras internas, promovendo gigantescos movimentos migratórios.

Os imigrantes promovendo terremotos nas estruturas sociais estratificadas das nações hospedeiras, com novos valores, novas informações, novas maneiras de encarar a vida.

O aparecimento de novos meios de comunicação, implodindo a ordem que repousava nos sistemas tradicionais de mídia.

A falência dos sistemas tradicionais arcaicos de política.

A crise atual decorre de uma soma similar de fatores:

Fator 1 – a falência do conhecimento científico

A crise de 2008 não apenas matou a ilusão do neoliberalismo como fator de promoção de desenvolvimento e bem estar. Levou junto a respeitabilidade do conhecimento científico junto ao público leigo, da mesma maneira que o atual estado de exceção está desmoralizando o conhecimento jurídico.

A expansão do neoliberalismo, da ampla desregulação financeira, foi fundada na adesão acrítica e interessada de vastos setores da academia, especialmente dos economistas – conforme atestam documentários produzidos depois da crise nos Estados Unidos. Literalmente, o mercado comprou a opinião da Academia.

O padrão de atuação do mercado, de braços dados com a mídia, sempre foi a de construir reputações de seus vendedores. Alçados à condição de celebridades, ajudavam na venda de produtos ou de ideias de seus empregadores.

Nas discussões sobre a desregulação da economia, por exemplo, economistas medíocres, repetidores de slogans, eram alçados pela mídia à condição de grandes gurus da economia. Para o universo dos Hommers Simpsons, um Mailson valia mais que um Paul Krugman.

Do mesmo modo, no apogeu da Nasdaq (a bolsa das empresas de tecnologia) os bancos de investimento fabricavam gurus a torto e a direito, fornecendo palpites para a manada.

O auge foi quando a Goldman Sachs recomendou a compra de ações da Microsoft logo após a União Europeia tê-la condenado por práticas monopolistas. O ganho do investidor não está em investir no tamanho da empresa, mas em sua expectativa de crescimento. Aquele episódio, mais a estabilização do mercado de desktops, decretava o fim do crescimento exponencial histórico da empresa, registrado em um período de amplo domínio do Windows. 
Para manter o mesmo ritmo de crescimento, teria que competir com os japoneses em games, com a Oracle em bancos de dados, com as novíssimas redes sociais que surgiam.

Era apenas uma jogada do banco. Ao perceber que as ações da empresa não tinham mais atração, preparou o mercado para poder desovar seus estoques de ações a um bom preço. E os gurus fabricados pela mídia norte-americana ajudaram no jogo.

Para tudo isso serviam os gurus. E toda  essa catedral de papelão veio abaixo com a crise de 2008. Menos em países intelectualmente subdesenvolvidos, onde um economista pode virar gênio sem publicar um trabalho acadêmico que preste..

Fator 2 – a implosão das regras sociais

No início das redes sociais, perdi uma aposta para o neurologista Danielle de Riva. Eu acreditava que a Internet e as redes sociais permitiriam a construção coletiva do conhecimento, com a informação libertando. Cético, De Riva apostava que liberaria todas as taras, com a formação de grupos de doenças sociais variadas, de pedófilos a terroristas.

Ganhou.

As redes sociais aboliram as barreiras naturais dos ambientes sociais presenciais. Agora, o sujeito pode entrar em qualquer ambiente virtual sem ser apresentado, sem os constrangimentos naturais, as regras sociais consolidadas  nos contatos presenciais, dando vazão aos seus instintos mais primários. Liberou geral.

Mais que isso, o espírito animalesco passou a encontrar assemelhados e a se organizar em alcateias, compartilhando as piores intenções e os piores sentimentos. Saíram do armário, nus e peludos como os homens da caverna, despidos de todo o verniz social e todos os princípios civilizatórios acumulados em séculos de civilização.
Do virtual para a contaminação do presencial foi um pulo.

Fator 3 – a opinião leiga

Essas hordas partiram para a guerra armados de slogans primários, mas de alta eficiência.

No trabalho seminal de 1962, em que previu todos os passos do golpe, Wanderley Guilherme dos Santos analisou o discurso da direita, na época praticado por Carlos Lacerda. Apesar do primarismo da análise, ironizada pelos acadêmicos, Wanderley anotava sua enorme eficácia junto às massas leigas. As massas – à esquerda ou à direita – são sensibilizadas por frases simples, slogans falsos como são as verdades definitivas que cabem em uma frase.

Lembro, com 13 anos de idade, influenciado pelo meu avô udenista, enfrentando frei Josaphat, do jornal Brasil Urgente, em um debate em Poços de Caldas:

-- Que governo é esse que impede a greve dos bagrinhos em Santos, em defesa da sua sindicalização?, bradei, com uma frase retirada diretamente da revista Ação Democrática.

E o frei, com a mesma impaciência que eu tive com o Hommer Simpsons:

-- Meu anjinho, você é muito novo para entender dessas questões.

O slogan disseminado pela revista armava de um menino de 13 anos a um adulto para participar de um debate ideológico – mesmo não tendo o menor conhecimento sobre o contexto discutido.

Dia desses, um conhecido, cientista social, contava o que se passou nos seus encontros familiares. De repente parentes que nunca se pronunciavam, por seu escasso conhecimento de temas políticos, passaram a entrar vigorosamente na discussão com argumentos similares ao do meu amigo Hommer Simpson. Construiu-se um verdadeiro manual da idiotia, conferindo a cada Hommer um tacape para utilizar em qualquer discussão.

A utilização da pós-verdade

No atual ambiente intelectualmente rarefeito, o discurso político da direita passou a visar o órgão mais sensível do Hommer Simpson: o fígado.
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É o ambiente ideal para o uso do preconceito, a disseminação da vingança, as bandeiras moralistas, o atropelo de todo o avanço jurídico, retomando os princípios da Lei de Talião e do estado de exceção – sob a aprovação dos humanistas de butique, como o Ministro Luís Roberto Barroso e o jurista Oscar Vilhena, agora convertidos em arautos do direito penal do inimigo.

Quando esse desastre recai sobre nações institucionalmente pobres, em que os valores civilizatórios dependem de uma mídia venal, da erudição vazia e descompromissada de juristas, de um parlamento vergonhoso, de partidos políticos não-programáticos, dá no que deu.

Não se imagine que o fundo do poço está à vista. A fragilidade institucional brasileira, a mediocridade de suas elites pensantes – à direita e à esquerda -, a ausência mínima de noção de soberania, de interesse nacional, de solidariedade nacional, sugerem que o desmonte nacional pode não ter fundo.

A Folha “tira o time” ou é sinal do que  vem  em  2017? 

Nílson Lage                              

Padrão da imprensa americana no Brasil são as Organizações Globo.
Transformaram-se, de um grupo editor local, entre outros, em virtual monopólio nacional de comunicação graças a acordos feitos com interesses americanos e, hoje, dependem deles para não ser rapidamente esmagadas por outros interesses americanos supervenientes – do Google ao Facebook, Netfix etc.
O Estadão entra por antigo vício cafeeiro e o que resta dos Diários Associados por letargia pré-comatosa.
A Folha de S. Paulo é diferente. Joga no time, mas tenta esconder o jogo – daí essa coisa estranha em, de repente, sair com um editorial como esse: “o que dissemos não foi bem assim, pode ser que seja diferente, vai ver que deu errado…”.
Tirando a hipótese (remota) de ser uma recaída do espírito crítico original que o Otavinho implantou, com boa estratégia de marketing, no final da ditadura militar, pode representar uma antecipação da nova realidade que se se implantará em 2017: a recessão nas ruas, o desemprego das massas, a consciência da perda de direitos dos trabalhadores, o lento esclarecimento dos meios militares; os investimentos deslocados para os Estados Unidos atendendo à nova politica do Presidente Trump e o consequente desvio de atenções agora voltadas para a agenda brasileira.
Do ponto de vista dos coordenadores e principais gestores, o golpe já obteve os resultados basicamente esperados: levaram ao estágio de liquidação a Petrobrás e a engenharia brasileira, penetraram segredos industriais e militares e, cooptando o Judiciário, criaram uma crise institucional e de confiança que ninguém sabe como terminará.
Essa história de direitos dos trabalhadores, o bote armado sobre as verbas de Educação e Saúde, o interesse em terras produtivas etc. são interesses secundários, ainda que poderosos. Poderão ser descartados?
Estará a Folha se habilitando a ascender na era-Trump e no pós-Globo?
Se for isso, é jogo arriscado.