quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Os mortos, os vivos

e  os  mortos-vivos  

    pinguela
Só os homens e mulheres  que se dedicam aos seus sobrevivem à morte.
Comece onde sua memória alcance e verá que é assim.
Para o resto, “sic transit gloria mundi” e um nome de rua.
Ah, sim, também uma herança a ser dissipada em vidas inúteis…
Como não vou descer ao meu tempo mental, fico nos exemplos que testemunhei.
Nasci quatro anos após a morte de Getúlio e, já na adolescência descobri que ele estava vivo.
Verdade que paradão, ali no “retrato do velho” do velho avô, mas vivíssimo na casa do IAPI, na sua dignidade de trabalhador, na identidade com seus vizinhos, operários também, até o “seu” Caiafa, por conta de quem volta e meia tinha tinha de cortar os galhos do abacateiro que bombardeava com seus frutos o telhado de um puxadinho atrás de sua casa.
Não era bem verdade aquele “o povo de quem fui escravo jamais será escravo de ninguém”, mas era a mais pura realidade “quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação”.
Anos depois, em ponto menor, conheci Leonel Brizola.
Jovem esquerdista, era dos que achavam que o parco marxismo respondia a tudo, tentei torcer o nariz para ele. “Populista”, “conciliador de classes”, ultrapassado por dizer que nossos impasses essenciais eram os mesmos de há vinte anos, etc…
Mas como a casca ideológica nunca foi grossa a ponto de me impedir de sentir o que era e de onde vinha, a maré brizolista tragou-me. Lembro-me de um diálogo que minha querida amiga Heloneida Studart onde ela se surpreendia com as “ilusões” que ouvira de uma moradora do Morro da Formiga, na Tijuca, de que “Brizola ia tirar dos ricos para dar aos pobres”.
Claro que isso não iria acontecer (ou melhor, aconteceria apenas dando um pouco menos aos ricos para dar um pouco mais aos pobres), dizia ela. E eu lhe respondi: “Heloneida, o milagre não é este, o milagre é que essa mulher pela primeira vez está falando isso em voz alta.
Veio Lula, depois, com quem tive alguns poucos contatos e, é lógico, não reencarnava Brizola, como este não reencarnou Getúlio.
Mas encarnavam – cada um ao seu momento, o parágrafo inicial do curto texto que resume as tragédias políticas deste país:
Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Francamente, não sei como alguém pode achar este texto, de mais de 60 anos, velho, arcaico, inservível para a análise de nossa ruína da política e nosso mergulho, insano, neste novo “abolicionismo”: abolição dos direitos, abolição do Estado, abolição da liberdade, abolição dos sonhos coletivos e a transformação da vida em um exercício mesquinho, individual e perverso de ganhar dinheiro (os que podem), “se dar bem” (os que sabem) e o desprezar seus irmãos.
Mesmo na dita “esquerda” sobrepõe-se o  sentido de “tribo” – grupos iguais –  ao de povo, unidade de diferentes com uma essência comum.
Aboliu-se o mundo dos mortos, o das identidades, das memórias, o que pode nos fazer um povo e um país pelo mundo dos “vivos”, ou muito vivos, que só pode fazer negócios e negócios da falsa esperteza, que rendem muito de imediato e são um desastre quando passam os dias.
Para fazê-lo. porém, é preciso apelar para outra categoria, a dos mortos vivos.
Gente como Michel Temer e Fernando Henrique Cardoso, nos quais a traição foi a escada que lhes permitiu chegar, a um só tempo, a condição de reis da pompa e príncipes da bajulação. Ter traído e se oferecido ao que diziam renegar foi seu passaporte para o poder  é seu prazeroso pacto de Fausto, sem que lhes doa a entrega da alma, o que lhes mantém como uma espécie de fantasmas a arruinar o país do qual, afinal, não se sentem parte.
Há os mortos que sobrevivem no amor ao futuro e os vivos que já morreram e fazem de tudo para nos levar de volta a um passado que é inviável, porque a História, como se disse antes, só lhes deixará, talvez, um nome de rua e, certamente,  a maldição do povo brasileiro.

Como a tensão  entre  EUA  e Rússia faz a  agenda  nuclear retroceder ao século passado


Mais de 90% das armas nucleares do mundo estão concentradas nos dois países, que vivem um momento de crescente hostilidade com os conflitos internacionais recentes...

  • Rafael Iandoli
  •                      
    Nexo jornal

                                                                                   FOTO: KEVIN LAMARQUE/REUTERS VLADIMIR PUTIN, DA RÚSSIA, E BARACK OBAMA, DOS EUA, SE CUMPRIMENTAM
    O presidente russo Vladimir Putin suspendeu, no início de outubro (dia 3), o acordo nuclear firmado entre seu país e os EUA. Em vigor desde 2000, e renovado em 2009, o tratado é um projeto do período pós-Guerra Fria, e considerado importante no caminho para a não-proliferação desse tipo de arma.

    O acordo previa que cada país destruísse 34 toneladas de plutônio, matéria-prima para a construção de 17 mil armas nucleares. EUA e Rússia são os dois maiores detentores no mundo desse tipo de arsenal, com 93% de todas as armas, segundo a Federação de Cientistas Americanos.

    Putin justifica a suspensão acusando os americanos de “alterarem radicalmente o ambiente” entre os dois países, com operações militares na Europa próximas à fronteira russa.

    As ações recentes do presidente russo preocupam por utilizar seu poderio nuclear como barganha política internacional. Especialmente quando um acordo pelo fim da guerra na Síria(AQUI) parece distante, aumentando o antagonismo das duas nações.

    A suspensão do acordo vai na contramão dos esforços internacionais(AQUI), empregados há pelo menos quatro décadas, para evitar a proliferação de armas nucleares. Elas são definidas como dispositivos explosivos que possuem potencial destrutivo baseado em reações nucleares.

    CONCENTRAÇÃO NUCLEAR

    Os motivos da Rússia

    Putin acusa(AQUI) os EUA de criarem um ambiente hostil à população russa ao aumentar sua presença militar(AQUI) em seus países vizinhos sob a bandeira da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

    Bulgária, Letônia, Polônia, Romênia e Estônia são citados pelo governo russo como locais onde os americanos se posicionaram de forma mais intensiva desde 2015.

    A Rússia também aponta os americanos como líderes de um processo de isolamento do país no ocidente. O embargo(AQUI) econômico imposto aos russos depois da anexação(AQUI) da Crimeia, em 2014, liderado pelos EUA, contou com a adesão de diversos países da União Europeia.

    Mesmo a exclusão(AQUI) de mais de 110 atletas russos da Olimpíada do Rio foi vista pelo governo como um exemplo da crescente “russofobia” na política internacional.
    Visão dos americanos

    Do outro lado, as reclamações contra a Rússia cresceram quando surgiu a suspeita de que o governo Putin teria hackeado(AQUI) os candidatos à presidência, Hillary Clinton e Donald Trump. O republicano diz em sua campanha que não tem problemas com Putin, enquanto Hillary prega ações mais fortes contra a Rússia.

    Em 2011, Hillary era secretária de Estado dos EUA e negociou com a Rússia uma área de proteção aérea na Líbia, que estava em guerra. No acordo, ela afirmou que não pretendia, com isso, intensificar a caçada a Muammar al-Gaddafi, apoiado pelos russos e rival dos americanos. Logo depois, ações da Otan resultaram na morte do ditador por forças rebeldes, e Clinton aparece em um vídeo fazendo piada sobre o caso.

    As Nações Unidas se opõem à anexação da Crimeia, fazendo coro aos EUA. Além disso, o apoio militar russo ao ditador sírio Bashar al-Assad constantemente resulta em ataques aéreos a posições não militares, matando pessoas não envolvidas na guerra.

    Armas nucleares como barganha
                                                                                               YURI MALTSEV/REUTERS 
    SUBMARINO NUCLEAR RUSSO EM EVENTO MILITAR NA CIDADE DE VLADIVOSTOK 

    A preocupação com relação à atitude russa é justificada com a percepção de que Putin tem se mostrado disposto a utilizar seu poderio nuclear como barganha internacional.

    Rússia e EUA evitam esse tipo de ação desde a Crise dos Mísseis em 1962, no meio da Guerra Fria, quando o plano soviético de instalar armas nucleares em Cuba quase foi colocado em prática, o que significaria um perigo iminente de guerra nuclear.

    Do episódio de Cuba em diante, mesmo em momentos de discordância, os assuntos são tratados separadamente. Putin, agora, rompe com a tradição.

    Em março, o presidente russo boicotou a cúpula internacional de segurança nuclear que foi sediada nos Estados Unidos. Na época, também(AQUI) afirmou que o país estava pronto para utilizar armas nucleares para proteger a Crimeia, caso fosse necessário.

    Agora, após suspender o tratado no início do mês, deslocou (AQUI)potentes mísseis nucleares do tipo Iskander-M a Kaliningrado, enclave russo localizado entre a Polônia e a Lituânia, na região dos países bálticos.
                                                                                  INTS KALNINS/REUTERS 
    TANQUES AMERICANOS FAZEM EXERCÍCIO NA LETÔNIA, VIZINHA DA RÚSSIA 

    Segundo a revista “Foreign Policy”, Putin afirmou que pretende repensar a suspensão do tratado caso os americanos diminuam sua presença militar em regiões próximas a sua fronteira, além de pagar uma compensação pelas perdas econômicas resultantes do embargo comercial.

    A Rússia(AQUI) também afirma que o tratado sobre plutônio não está relacionado aos compromissos de não-proliferação de armas nucleares, e que continua comprometida com a causa.

    Em 1947, o Boletim dos Cientistas Atômicos criou o “Relógio do Dia do Juízo Final”, no qual os ponteiros se movem de acordo com a iminência de um ataque nuclear, sendo a meia noite o momento da explosão. Em 2015, o ponteiro saiu das 23:55 e foi para 23:57. Desde sua criação, o relógio mudou de posição apenas 21 vezes.

    quarta-feira, 2 de novembro de 2016

    O Brasil do golpe  deu  num  juiz que manda a PM usar tortura em meninos  e  meninas                    

    Kiko Nogueira                                  

    estudantes df
    Quando alguém disser para você que um juiz autorizou, em 2016, a PM a utilizar métodos de tortura para forçar meninos e meninas a sair de uma escola, e você responder que em 2016 isso é impossível e intolerável, conte para esse alguém sobre a decisão de Alex Costa de Oliveira, da Vara da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios.
    Um país que sofreu um golpe é um país vulnerável. A partir de uma farsa jurídica, em que as instituições são postas de cabeça para baixo, tudo é possível. Tudo.
    Se temos um magistrado de primeira instância de Curitiba com poderes plenipotenciários, tratado como um semideus, que deixa de joelhos o STF, se temos um presidente ilegítimo que, desde o primeiro momento como interino, impôs uma agenda oposta à chapa pela qual foi eleito — se temos isso, por que Oliveira se vexaria em autorizar a polícia a tocar o terror como nos velhos tempos de ditadura?
    Para desocupar o Centro de Ensino Asa Branca, de Taguatinga, Oliveira autorizou o uso de — ah, esses eufemismos — técnicas de “restrição à habitabilidade”. Do que se trata?
    Corte do fornecimento de água, luz e gás das unidades de ensino; restrição ao acesso de familiares e amigos, inclusive que estejam levando alimentos aos estudantes; e até uso de “instrumentos sonoros contínuos, direcionados ao local da ocupação, para impedir o período de sono” dos adolescentes.
    Ele ainda ressalta, em seu despacho, que tudo isso deve ser feito “independentemente da presença de menores no local”.
    Você há de perguntar: essa gente não tem filhos? Essa gente quer deixar isso para seus filhos?
    Num excelente artigo para o Conjur, o valente jurista Lenio Streck escreve o seguinte:
    Estamos indo com sede ao pote no e do autoritarismo. Vamos ao moinho e poderemos perder o focinho. Já não se respeitam nem os adolescentes estudantes. Quem será o próximo? A Constituição nada vale? Proteção à criança e do adolescente? Alguém leve, urgentemente, o ECA para o juiz de Brasilia. Tenho medo que usem gás lacrimogênio. Sim, consta que os adolescentes saíram pacificamente dia 1. Também, pudera. Saíram com medo de serem chicoteados. Provavelmente seria a próxima medida.                                  
    Ao todo, mais de mil escolas estão ocupadas em todo o país contra a PEC 241. Benditos sejam esses moleques. E benditos daqueles de nós que não assistimos a isso de braços cruzados. Todo poder às anas julias.

    Substituição do ‘trabalhador’ pelo ‘empreendedor’  afeta a esquerda



    Discurso do PT passa por transformação profunda, com queda no sindicalismo e ascensão de autônomos e pequenos empresários. Novo cenário impõe desafio para o futuro da esquerda, diz antropólogo Celos Gutierrez ao ‘Nexo’...



  • João Paulo Charleaux                           
  •   Nexo jornal

    Fábrica da Embraer
     TRABALHADORES DA EMBRAER ANTES DE ASSEMBLEIA EM SÃO JOSÉ DOS CAMPOS-SP
    Partido dos Trabalhadores saiu desta eleição municipal de 2016 como uma partido mais fraco e cada vez menos ligado aos trabalhadores. O binômio que justifica o nome da sigla perdeu grande parte do seu sentido original. E da mística de seu propósito de fundação também.

    Parte disso diz respeito aos casos de corrupção que envolvem alguns de seus principais líderes, o impeachment da presidente Dilma Rousseff e o crescimento de uma oposição liberal na economia e conservadora nos costumes.


    Porém, uma outra parte dessa desidratação está relacionada ao fim de um ciclo que, por décadas, nutriu o discurso da luta de classes e da organização sindical, que era alma do PT e da esquerda no Brasil.

    A ascensão da classe 'C', ocorrida em grande medida durante os 13 anos de presidências petistas, também contribuiu para a mudança do perfil social e econômico de uma parcela importante dos brasileiros.

    Há um processo de desconstrução da noção de classes sociais”, disse ao Nexo o antropólogo Carlos Gutierrez. Esse processo “faz com que não pensemos mais a partir da dicotomia 'operários' e 'patrões', mas sim como 'colaboradores' de um mesmo ideal, sem divergências de interesses. Isso mina a crítica social da esquerda e explica, em parte, o momento de sua derrocada no mundo.

    Gutierrez pesquisa especialmente as identidades religiosas nas periferias e a produção social dos evangélicos, em doutorado na Unicamp. Em 2014, ele cursou um semestre de “gestão empresarial” na Igreja Universal do Reino de Deus, à qual o prefeito eleito do Rio, Marcelo Crivella, é ligado. O crescimento evangélico tem sido um dos vetores de transformação dessa mentalidade, sobretudo nas periferias. Se nos anos 1970 a Igreja Católica politizava os “trabalhadores”, hoje as igrejas evangélicas politizam os “empreendedores”.
      
    Para Gutierrez, “a esquerda deveria incorporá-los [os antigos trabalhadores, convertidos em empreendedores, especialmente evangélicos] em seus núcleos partidários e organizações, pois aceitar a diferença e a pluralidade de visões de mundo que esse grupo social carrega é fundamental para a esquerda se transformar e também transformá-lo”.

    O pesquisador explica que, entre os moradores de favelas, “53% dos entrevistados atribuía a melhoria de vida ao seu esforço, 24% à fé pessoal e apenas 5% ao governo”. Portanto, “essa descrença com relação à ação governamental na melhoria de vida revela também uma indiferença com relação às bandeiras históricas da esquerda.

    O TRABALHADOR está dando lugar ao EMPREENDEDOR? Essa mudança é mais forte nas periferias?

    CARLOS GUTIERREZ > A antiga legislação trabalhista começa a dar lugar à forma mais flexível do ‘colaborador sem vínculo empregatício’, nessa etapa atual do capitalismo. Isso obriga muitos trabalhadores a se tornarem Pessoa Jurídica para continuar em sua atividade. Esse fenômeno compreende uma clara precarização das relações de trabalho e também a queda de arrecadação na Previdência, complicando a receita do Estado. Há uma tendência para que todos sejam empreendedores, uma vez que as regras coletivas de negociação passam a ser substituídas por acordos individuais.

    Hoje, no Brasil, 35,4% da população adulta possui negócio próprio, índice superior à China e aos EUA. Evidentemente, parte desse crescimento pode ser explicado pelo aumento de formalizações de negócios já existentes, mas 45% dos novos empreendedores trabalhavam antes com carteira assinada, o que indica um aumento considerável. Nas favelas, 40% dos moradores deseja ser dono do próprio negócio.A nova classe C - chamada pelo sociólogo Jessé de Souza de ‘batalhadores’ - encontrou no empreendedorismo uma possibilidade de ascensão social. Atualmente, boa parte de moradores das periferias das grandes cidades, antigos assalariados, ou trabalhadores que ofereciam seu serviço de forma esporádica, dedica-se a um pequeno empreendimento, como bar, lanchonete, costura, salão de cabeleireiro, oficina mecânica.

    Qual o papel das igrejas evangélicas nessa mudança?

    CG > As igrejas evangélicas tiveram um importante papel no processo de ascensão social brasileiro, em conjunto com medidas como valorização de salário mínimo e diversos programas sociais. Na religião, os fiéis encontraram incentivo e apoio, e desenvolveram sua autoestima, ganhando uma nova esperança para reagir em um cenário completamente adverso. Além disso, a religiosidade evangélica contribui para a construção de um ethos baseado no trabalho duro, ou seja, uma disposição para lutar e aguentar extensas jornadas de trabalho, associadas, em muitos casos, a período de estudo noturno. Muitas dessas pessoas atribuem sua força e resistência à fé e aos ensinamentos ministrados nas igrejas.

    Porém, o que gostaria de ressaltar é que muito além do incentivo ao empreendedorismo, as igrejas evangélicas foram responsáveis por instaurar um processo de reflexão acerca das relações de trabalho e da desigualdade social no país. Na perspectiva dessas pessoas, a igreja foi fundamental para se revoltarem diante situações de humilhação e de degradação no emprego. Na perspectiva das pessoas que entrevistei e convivi, ser assalariado é estar condenado a ser explorado, a uma vida miserável, sem autonomia e sem realização pessoal. Para eles, a solução se encontra no negócio próprio. Trata-se de uma crítica complexa, pois ao mesmo tempo em que condena o capitalismo, encontra nele próprio uma solução.Em minha pesquisa, pude perceber um forte incentivo ao empreendedorismo, encarado por pastores e fiéis como uma solução frente ao cenário de desemprego e de empregos mal remunerados. Essa iniciativa não se reduz apenas a cultos e reuniões, mas há instituições que contam com cursos e oficinas de formação para capacitar seus fiéis a empreender. A Igreja Universal é uma delas. Os fiéis também são frequentemente convidados a refletir sobre o futuro, para estabelecer planos, conseguindo racionalizar a vida.

    Os partidos de esquerda têm como força maior, tradicionalmente, a defesa do direito do trabalhador, da organização sindical e da luta de classes. Que terreno essa mensagem tem encontrado hoje?

    CG >  Desde os anos 1970 a esquerda tem abraçado outras causas sociais como o ambientalismo, feminismo, movimento negro e LGBT. Logo, o próprio discurso da esquerda também se fragmentou e hoje a luta social divide espaço com outras bandeiras.

    Eu digo isso pois são temas que podem levar setores da sociedade com uma perspectiva mais tradicional, com relação à moral, a rejeitar o projeto político da esquerda, mesmo que no plano econômico estejam de acordo com maior regulamentação da economia e proteção ao trabalhador. Enfim, são diversos os fatores que podem explicar o enfraquecimento da esquerda. A questão da moralidade é um deles.

    Para esses empreendedores, muitos atribuem o sucesso ao próprio trabalho e à fé. Pesquisa realizada pelo DataFavela(AQUI) mostra que 53% dos entrevistados atribuía a melhoria de vida ao seu esforço, 24% à fé pessoal e apenas 5% ao governo. Essa descrença com relação à ação governamental na melhoria de vida revela também uma indiferença com relação às bandeiras históricas da esquerda.

    Considerando-se também que muitos desses assalariados, hoje, são empreendedores, a crítica nesse terreno não parece fazer muito sentido a essas pessoas, atualmente mais interessadas em temas como, por exemplo, carga tributária, segurança e condições de empréstimo para pequenos empresários. Isso não significa, absolutamente, que a defesa do trabalhador e da CLT deixaram de importar a um amplo setor da sociedade, mas sim que novos interesses emergiram a partir do desenvolvimento de uma nova classe social e seus anseios.

    Quanto da derrocada da esquerda pode ser creditada a essa mudança na organização do trabalho?

    CG > No capitalismo contemporâneo, em muitas atividades profissionais, as negociações coletivas deram lugar aos acordos individuais, o que enfraqueceu os sindicatos. Dessa forma, um importante agente mobilizador nas sociedades modernas perdeu espaço. Além disso, o setor industrial, onde se concentrava historicamente a classe trabalhadora, diminuiu em todo o mundo e perde espaço para o setor de serviços, em um ambiente menos sindicalizado.

    Enquanto isso, no plano simbólico, há um processo de desconstrução da noção de classes sociais. Na gramática desse novo capitalismo, não temos mais patrões e funcionários, mas sim líderes e colaboradores; operário torna-se operador e assim por diante.No Brasil, a atividade industrial diminuiu em ritmo muito mais acelerado do que a taxa mundial, devido à financeirização da economia e ao crescimento da taxa de juros que favoreceram mais o capital especulativo.

    No ambiente das empresas, essas classificações mais neutras produzem novas pequenas hierarquias que desmobilizam anseios coletivos de trabalhadores, anteriormente organizados sob o mesmo status. Essa mudança não afeta somente uma palavra, mas é responsável por produzir uma nova forma de pensar e justificar o capitalismo. É a ideologia que sustenta o capitalismo moderno e que faz com que não pensemos mais a partir da dicotomia operários e patrões, mas sim como colaboradores de um mesmo ideal, sem divergências de interesses. Isso mina a crítica social da esquerda e explica, em parte, o momento de sua derrocada no mundo. No Brasil, acredito que essa queda da esquerda explica-se mais pelos escândalos de corrupção dos governos petistas e pelo atual momento de crise econômica, atribuída ao PT.

    Empreendedores individuais são por natureza mais liberais economicamente do que os empregados assalariados?

    CG > A mudança da situação implica também uma transformação na visão de mundo e nos anseios das pessoas. Pode ser que as necessidades sejam outras, o que pode significar uma visão mais liberal com relação a impostos e encargos trabalhistas. Entretanto, em muitas igrejas, por exemplo, há uma pressão para a regularização dos negócios, por meio do Supersimples e também pela formalização dos empregados. Há um certo componente ético que atribui uma importância à carteira assinada dos trabalhadores, o que, talvez, não fosse encarado por muitos como uma visão perfeitamente liberal.

    O que a esquerda tem a oferecer para esse novo setor da sociedade daqui para frente?

    CG > A esquerda deve fazer um profundo processo de reflexão com relação à emergência dessa nova classe social e seus anseios e, de forma mais geral, e em relação às novas configurações do capitalismo. Além disso, precisa fazer uma autocrítica à forma como se relacionou com o poder e com o sistema político nas gestões petistas.

    Isso não os exime de críticas, que devem ser feitas, mas também é necessário conhecer as críticas dessas pessoas. Acredito que a melhor coisa que a esquerda possa oferecer é uma mudança de atitude, aceitando o protagonismo dos pobres e sua capacidade de reflexão, ao invés de limitar-se à crítica desses sujeitos como ignorantes e/ou alienados. A esquerda deveria incorporá-los em seus núcleos partidários e organizações, pois aceitar a diferença e a pluralidade de visões de mundo que esse grupo social carrega é fundamental para a esquerda se transformar e também transformá-lo. A esquerda precisa, urgentemente, produzir um descentramento de seu ethos, predominantemente, de classe média, entender que não é dona de uma verdade absoluta e incorporar novas visões de mundo. Nesse processo, ganha a democracia brasileira.A sobrevivência da esquerda passa pela incorporação desses batalhadores, muitos deles evangélicos. Por isso, precisamos estabelecer uma comunicação direta com esses grupos, de forma aberta e respeitosa, aceitando o que eles têm a dizer. Só assim poderemos entender o que eles pensam e também aprender com eles, pois, certamente, eles devem ter algo a nos ensinar, principalmente no que diz respeito à mobilização de massas e auxílio social.

    Há relação entre o crescimento econômico da classe C e o crescimento da direita e da centro-direita nestas eleições municipais de 2016?

    CG > Não. Acredito que os principais fatores de descrédito da esquerda foram os escândalos de corrupção dos governos do PT, uma cobertura maciça dos meios de comunicação a respeito desses casos, a intensa mobilização das pessoas nas redes sociais contra a esquerda e contra o que consideram como sendo de esquerda. Além disso, assistimos também ao surgimento de uma nova força política ultraliberal, caso do MBL (Movimento Brasil Livre), que teve grande poder de mobilização nas manifestações pelo impeachment.

    Desde as manifestações de Junho de 2013, a esquerda vem perdendo espaço no plano eleitoral e mesmo na capacidade de mobilização de pessoas. Em 2014, Dilma reelegeu-se de forma muito apertada e os brasileiros elegeram um Congresso muito mais conservador. O atual pleito apenas foi o aprofundamento de um processo que já havia começado antes.

    Com relação à classe 'C', não é possível afirmar que ela tenha abandonado o barco por conta de sua ascensão social. Abandonou por conta dos fatores acima. Da mesma forma, caso a economia não melhore, poderá voltar a votar em um candidato do campo de esquerda no futuro.

    Pequena  história   de

    uma  grande farsa – II

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    Começo a segunda parte do texto iniciado ontem com a ajuda deste gráfico que me envia a amiga Angela Romito. (Clicando na imagem você a vê em tamanho maior)
    É uma bofetada numérica nos sábios que vivem repetindo que os governos do PT não fizeram “nada”, que arruinaram o país e se conseguiram algo foi porque tiveram uma conjuntura internacional favorável, como se a crise de 2008/9 não tivesse sido, no dizer deles próprios, só comparável ao crash de 1929.
    tripa2
    Esqueçamos os números dos economistas, para os quais há também um extenso quadro de comparações na imagem aí ao lado,  essa “tripa” de dados que acompanhará todo o post, até o final, capaz de derrubar todos os “senões” que possam levantar.

    E a primeira geração sem fome no país? E a duplicação do número de estudantes universitários? E as mudanças no Nordeste? E o pré-sal? E o ressurgimento de um programa habitacional popular que este país não tinha desde que quebrou o BNH, ainda na ditadura? E o fim da dívida externa e da “meteção de bedelho” das missões do FMI por estas plagas?
    Não vou cansar os leitores e a as leitoras com uma sucessão infinita de perguntas assim.
    O PT foi conciliador? Sim, teve um projeto de conciliação que se quebrou, porque a elite deste país divide assim as coisas: o progresso é dela, os problemas são do governo, que deveria obter recursos com prestidigitação, e não com impostos cobrados de quem os pode pagar.
    A direita está em um projeto selvagem de “restauração”. PEC 241 combinada com reforma de ensino médio vai fazer regredir na universalização do ensino que se iniciou com o próprio  PSDB…Como ampliar para 7 horas o ensino com teto de verbas?
    A interrupção nos empréstimos internacionais do BNDES, que parece um tema de “lisura” é uma tragédia anunciada, porque deve gerar o calote das parcelas já paga e o fim do nome do país para financiar exportações. A indústria naval está sendo destruída e o pré-sal será explorado nos próximos 20 anos com lucros para poucos e nada revertido para políticas públicas de saúde, educação, ciência e tecnologia.
    O que irão gerir esses novos prefeitos da direita, tão saudados? As expectativas do “pós-PT” com recursos “pré-PT”?
    As transferências da União, com o déficit nas contas públicas se tornaram menores, muito menores. O que é repassado a Estados e Municipios por repartição de receita, este ano, caíram 9%, em valores reais. As voluntárias,  muito mais. O processo se repete, com a recessão, para o que vai dos Estados para a s prefeituras, pela via do ICMS. O gigante São Paulo perdeu no mês de setembro 10% de suas receitas com este imposto.
    Educação e saúde nos tempos da PEC 241? Boa sorte para entregarem o que prometeram.
    É possível que João Dória consiga se sustentar bem, por um tempo: é esperto, rápido e terá a mídia. Marcelo Crivella é uma incógnita e pode perder ou ganhar com o interessantíssimo Globo X Record no Rio., Diz um velho ditado que quando os gatos brigam, folgam os ratos.
    Claro que os tempos são sombrios. Poucas vezes, desde a ditadura, a direita esteve tão feroz e obscurantista. E tendo agora, como teve nas Forças Armadas á época, a Justiça como instrumento da perversidade.
    Dia a dia a “overdose” de judicialismo policial vai se acentuando e não apenas nisso: tem sido sistemática a cassação de direitos sociais e trabalhistas pela via do Judiciário, como já se apontou aqui.
    “Quando não se tem nada, não se tem nada a perder”. A frase do Bob Dylan, agora Nobel, deveria servir à esquerda nesta hora de muitas mágoas, ambições e auto-críticas.
    Há problemas geracionais,  fetiches pelo “fracasso” que os meios de comunicação alardeiam e que – embora reais, não podem ser tornados absolutos por resultados de eleições locais.
    Boa sorte aos que pretendem se enclausurar em redomas de pureza egocêntrica. Mas quem quiser viver o mundo real tem de se procupar em  construir um programa mínimo e amplo com alianças em setores (sociais, regionais e inclusive empresariais) que logo irão descobrir que o envelhecido projeto do golpismo também lhes será lesivo.
    Não haverá recuperação na economia real. Não está no horizonte imediato dos pobres terem o que um dia tiveram.  Será fechada a porta da ascensão social aos mais jovens. O Nordeste desconfia demais do Golpe. Os empresários que vendem para o mercado interno não sairão da crise. Embora a mídia promova o otimismo com o futuro, o povo aguarda e não servirá para sempre o antipetismo como explicação para todas as mazelas, mas isso .
    Aqueles que negam a política (e a geopolítica)  entendam: se o estado brasileiro não mudar, o país não muda e o nosso povo (e, com ele, o convívio social mais amplo) afundará cada vez mais.
    A disputa pelas políticas públicas permite multiplicar o alcance e eficácia da nossa luta por um país melhor e mais justo. Isso não é contraditório com organização popular ou conscientização da sociedade. São lutas complementares permanentes. Reduzir nossos sonhos a isto não apenas é pensar em ponto pequeno, é destruir estes próprios avanços, porque torna-los o tema central nos afasta do que o povo sente.
    O Brasil não tem outro caminho senão o de ser o que é: um país grande, um grande país. Sem essa visão nacional, jamais seremos um país com renda média, com condições de vida dignas para uma população de 200 milhões, com distribuição de renda ao mínimo civilizada.
    Não temos outra opção, pelo nosso tamanho, senão ser uma potência com repercussões globais e é por isso que o golpe não enxerga o quanto nos diminui e diminuirá no contexto (político e econômico) mundial. Países pequenos, como o Uruguai, podem garantir bom padrão de vida para sua população sem ameaçar ninguém. Não temos esta opção, não basta uma simples gestão: precisamos de um projeto nacional, que nossa elite faz questão de sabotar e parte da esquerda acha bobagem.
    Inexistem caminhos para a estabilidade aqui que não passem pelo crescimento econômico, inclusão social, democracia e participação, promoção de tolerância, respeito ao meio ambiente (com eficiência energética e fontes alternativas), mais recursos para educação, saúde, ciência e tecnologia, inclusive de defesa nacional. Já estivemos, com erros e insuficiências, nessa direção.
    A política tem suas ondas. Fluem e refluem e cada uma delas deixa suas marcas. Quem as despreza, quem não sabe perceber seus sinais, quem não tem convicção suficiente para ter calma e compreende-las dificilmente estará no lugar certo na próxima maré. Pode ficar só, no seco, pode ser engolfado e tragado por ela.

    Esquerdas: dos escombros à 

    reconstrução

    Aldo Fornazieri                   

    As eleições municipais - primeiro e segundo turno - tiveram o efeito de uma bomba termobárica sobre o PT em particular e sobre a esquerda em geral. Com os resultados, as estruturas institucionais de poder foram drasticamente reduzidas. Isto importa perda de capacidade de articulação, de mobilização e de interação política e social. No segundo turno, a derrota do PT foi ampliada: não venceu em nenhuma prefeitura que disputou e do chamado cinturão vermelho da Grande São Paulo não sobrou nada. Em que pese as boas votações no Rio de Janeiro e em Belém, o PSol não conseguiu se viabilizar como a alternativa de esquerda que imaginava ser.
    Das eleições emergiu um cenário que já se tornou mais ou menos óbvio: o grande vitorioso é o PSDB, com o fortalecimento de Alckmin e enfraquecimento de Aécio Neves; partidos pequenos e médios, situados ao centro e à direita, se fortaleceram, o que poderá dificultar a reforma partidária e a introdução da cláusula de barreira; com a vitória de Crivella se fortalece o projeto político da Igreja Universal e o conservadorismo no âmbito dos direitos civis e individuais e no terreno dos valores e costumes; o bloco de sustentação do governo Temer deverá prolongar a sua unidade reforçando a tendência de aprovação de reformas conservadoras; com  viabilização do governo Temer, seja pelas vitórias eleitorais do campo que o apóia seja pela aprovação da PEC 241 por ampla margem na Câmara dos Deputados, a ameaça de afastamento do presidente  pela via de decisão do TSE foi praticamente afastada.
    A contraparte do avanço do conservadorismo é a desmobilização, a desorganização, a desorientação, a fragmentação e a cisão das esquerdas. O "fora Temer" perdeu a capacidade mobilizadora e se tornou uma espécie de lamento de inconformados. O combate à PEC 241 foi pífio e as esquerdas e movimentos sociais não foram capazes de apontar uma alternativa. As Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo vivem um momento de perda de capacidade de articulação e mobilização. Os novos movimentos sociais, dos estudantes que ocupam escolhas aos movimentos de periferia, dos grupos feministas e LGBTs aos círculos e grupos sociais, o que há é uma rejeição e críticas aos partidos de esquerda. Das lideranças democráticas e progressistas, o único que saiu ileso e relativamente fortalecido desse processo foi Ciro Gomes.
    As ilusões das esquerdas e os difíceis
    caminhos da reconstrução
    A maior ilusão do PT consiste em alimentar a crença de que um possível fracasso do governo Temer poderá significar a sua ressurreição em 2018. Muitos petistas não se deram conta do que aconteceu com o partido: ele é odiado, rejeitado pelas pessoas em geral e por parcela grande de trabalhadores e classes médias. A recuperação do PT demandará anos. A derrota eleitoral poderá se ampliar em 2018, com uma grave redução de sua bancada federal e com o quase desaparecimento de sua força no Senado. Dos 10 senadores do partido, 8 terão que buscar a reeleição nesse quadro difícil.
    Convém lembrar que se o PSDB vencer as eleições em 2018, terá demorado 16 anos para voltar ao poder. O PSDB saiu do governo enfraquecido, mas não destruído. Manteve estruturas de poder e a condição de ser um dos polos da disputas presidenciais em todas as eleições. O PT enfrenta graves limitações de poder e de capacidades políticas e intelectuais. Se nada de extraordinário acontecer, terá que passar uma geração para que o partido possa adquirir maior potência política.
    A grande ilusão do PSol é a de que ele poderá ocupar o espaço e a importância que o PT teve. Ocorre que o processo de ascensão do PT se deveu à combinação de uma série de singularidades, ocasiões, circunstâncias, capacidades e lideranças, força política e social e virtuosidades que dificilmente se repetirá na história. O lugar que cada ator pretende ocupar no espaço político não depende apenas da vontade, mas da ocorrência dessas singularidades. Ademais, as idiossincrasias internas do PSol também são um fator limitante ao seu crescimento. O partido deveria se dar por muito satisfeito, levando em conta o que ele é hoje, se um dia chegasse a 10% dos votos nacionais. Já o PC do B, com seu aguçado senso de realismo, parece compreender melhor o espaço político que pode ocupar.
    Em que pesem essas ilusões e a paralisia dos partidos ocorrem algumas importantes iniciativas com o objetivo de encontrar novos caminhos para as esquerdas. Duas delas são confluentes numa perspectiva estratégica. A primeira delas diz respeito à ideia da organização de uma frente democrática e progressista, não só para enfrentar as eleições de 2018, mas para criar um campo unificado de partidos e movimentos sociais, mantendo as respectivas pluralidades,  tendo em vista uma perspectiva de futuro. A segunda propõe a realização de um processo de prévias, com filiados e não filiados aos partidos progressistas e de esquerda, visando definir as candidaturas para 2018 e elaborar um programa de governo. Esse processo poderia servir também como instrumento de organização de uma frente. A dificuldade dessas iniciativas reside na pouca propensão dos partidos de esquerda de se unirem, mesmo na desgraça.
    Outras iniciativas articulam a estruturação de institutos de estudos e debates, grupos e movimentos políticos e reunião de entidades e movimentos visando enfrentar a pauta conservadora e construir uma agenda política em face da paralisia dos partidos. Os movimentos sociais autônomos devem continuar crescendo e se mobilizando em torno de pautas específicas. Mesmo que sejam refratários aos partidos, há a necessidade de construir um diálogo democrático com esses segmentos, com o objetivo de elaborar um programa universalizante. Os movimentos autônomos que surgiram nos últimos anos, em vários países, foram importantes nas mobilizações, mas mostraram os seus limites nos embates contra as estruturas de poder existentes.
    Os imponderáveis da conjuntura
    A esmagadora vitória dos partidos conservadores poderá encontrar alguns percalços na caminhada para a sua consolidação rumo as eleições presidenciais. O maior dele são as imponderalibilidades e incertezas que podem brotar da Lava Jato, com as delações da Odebrecht e, possivelmente, de Eduardo Cunha. Essas delações podem provocar estragos nas lideranças nacionais do PSDB e do PMDB. É certo que há movimentos para frear a Lava Jato, anistiar o "caixa 2" e limitar as investigações de corrupção. Alguns desses movimentos são, inclusive, respalados pelo PT em mais um de seus equívocos na vã esperança de que poderá salvar alguns de seus líderes. Essas limitações, anistias e freios visam salvar os políticos do PSDB e do PMDB já que estes ainda não se tornaram réus. Mesmo que essas limitações e anistias venham as ser implementadas, não beneficiarão os petistas, alguns já condenados e outros já réus por imputações que não são de "caixa 2".
    As esquerdas precisam distinguir o que são arbitrariedades da Lava Jato da necessidade de investigar e punir também os políticos do PSDB e do PMDB. Devem exigir a renúncia dos ministros citados e denunciar a proteção que se procura estabelecer para o atual governo. Se é verdade que a indignação contra a corrupção foi seletiva, caso não haja uma forte campanha de denúncias contra essas manobras protecionistas, o PT passará para a história carregando com exclusividade o ônus da corrupção do nosso tempo.
    O segundo percalço que pode ocorrer é o fracasso do governo Temer e a cisão do seu bloco de sustentação. O programa do governo, sem dúvida, deverá aumentar o desemprego, precarizar as relações  de trabalho, reduzir direitos e provocar o fechamento de fábricas e indústrias. Este tipo de programa, mais radical do que os anos de neoliberalismo de FHC, tende a cindir a base e provocar mobilizações sociais. Dada a crise econômica, o governo tem pouca margem de manobra para enfrentar essa possível situação. O que poderá sobrevir dessas imponderabilidades é imprevisível. Não de pode descartar a possibilidade de um candidato outsider ou aventureiro triunfar em 2018.
    (*) Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política da USP.