A finalização da operação-golpe depende do sucesso das próximas e decisivas jogadas.
Descaracterizar a Lava-jato como instrumento criado para derrubar definitivamente Dilma, prender Lula e inviabilizar o PT para as próximas eleições, cassando, inclusive, a sigla.
Estava dando tudo certo, até a foto oficial do novo governo. A imagem rodou o mundo.
Um projeto dessa magnitude, promover a destituição de um governo legitimamente eleito, seria inviável sem o bombardeio midiático recheado de matérias ardilosamente preparadas.
A ideia era criar confusão mental capaz de fazer crer que, justamente, o governo que mais beneficiou o povo necessitado foi o que mais roubou na história do país.
Foi a fórmula encontrada para desqualificar os avanços do país, invertendo completamente a realidade. E a crise veio a calhar.
Porém, o ruído da imprensa internacional, mesmo a mais tradicional como inglês The Economist(AQUI) e o alemão Die Zeit(AQUI), foram causando desconforto a essa falsa credibilidade da imprensa nacional, que se vê, no momento mais crucial, desmentida e contrariada.
As tentativas de legitimar o governo interino foram caindo no vazio.
“O rombo (veja a proximidade de grafia e, principalmente, de pronúncia das palavras rombo e roubo) de 170 bilhões, causado pelo governo Dilma, acabou com o país”.
O objetivo do bombardeio era fazer as pessoas mais humildes escandalizarem-se com o montante de dinheiro que a presidenta ‘roubou’.
Mas isso era e foi pouco, mesmo manipulando números e adotando ‘novos’ critérios de análise. E como dar cabo da operação em meio a essa guerra de versões de legitimidade?
Bem provável que dando um novo “banho de loja” na operação Lava-jato.
Para isso, no entanto, “haver-se-ia” de sacrificar bispos, torres e cavalos. Significa dizer que o comando do plano se torna mais restrito e que nem todos se salvarão. O xeque-mate exige sacrifícios de peças dispensáveis.
Novos vazamentos.
Cansados de não ter argumentos contra a blindagem dos políticos partícipes do golpe, os defensores do impeachment poderão, a partir de agora, encher a boca. A justiça – finalmente, ufa! – é igual para todos, independentemente de partidos.
Curioso que, desta forma, grande parte dos ‘cidadãos de bem, apolíticos e apartidários’ será atendida em seus desejos mais nobres de justiça.
As novas gravações, envolvendo um número considerável de pessoas meticulosamente escolhidas para serem jogadas aos tubarões, atingem alguns dos mais representativos caciques da política, porém, ao mesmo tempo, desmoraliza o Supremo Tribunal a ponto de não ter alternativas senão negar qualquer recurso que possa garantir a defesa do mandato de Dilma e salvar Lula da cadeia.
As duas novas operações da Lava-jato, Senatus e do Barba, seriam as derradeiras?
Tudo leva a crer que o PSDB seria preservado, mesmo que tenha que jogar Aécio – e suas atuais poucas carnes – às piranhas, e Temer seria conduzido até 2018. No entanto, se algo der errado, o interino será jogado, sem cerimônias, no azeite quente.
Possivelmente veremos o descarte de peças até então protegidas, mas que, em caso de necessidade de preservar o núcleo duro, não serão poupadas. Lembra muito “O Poderoso Chefão” do Mário Puzo, porém, numa escala muito maior.
Uma nova eleição seria alternativa somente em caso de presidente interino frito, já sem os riscos do PT disputar.
Hoje, quase três meses depois da tentativa de prender Lula (em 4 de março), o cenário parece mais favorável para finalizarem o golpe.
O que falta, porém, é ainda combinar tudo isso com a população que já entendeu que qualquer coisa vinda dessa turma será engodo.
Tem uma peça que ainda não fecha.
Eles acreditam que, no caso de Lula ser preso, não haverá nenhuma revolta popular? Acreditam que poderão silenciar a mídia alternativa ou, até mesmo, expulsar os correspondentes internacionais indesejáveis, como sugere o editorial do Estadão? - LEIA AQUI -
Se sim, o que lhes dá tamanha segurança? A resposta pode estar na própria pergunta: segurança reforçada, repressiva.
Ah! E sem esquecer:censura ampla, geral e irrestrita.
Mulheres
derrubam a cerca
Do
Supremo Tribunal Federal
"Contra o estupro da Democracia!" (Viu, Gilmar (PSDB-MT)?)
Nesse domingo (29), em Brasília, mulheres organizaram a "Marcha das Flores - 30 Contra Todas" e cercaram o Supremo Tribunal Federal contra Michel Temer e o estupro da Democracia.
Gilmar (PSDB-MT), precisa desenhar, Gilmar?
A marcha carregou e depositou as flores na estátua da Justiça e as mulheres ocuparam a frente do STF.
Em tempo com vídeo demolidor: fora Gilmar, protetor de estuprador!
Em tempo 2, da Mídia Ninja:
Enquanto isso temos como ministro do Supremo, Gilmar Mendes.
Não podemos esquecer que foi ele o responsável pelo habeas-corpus do médico estuprador Roger Abdelmassih, preso no Paraguai, que foi condenado a 278 anos de prisão pela Justiça criminal de São Paulo em novembro de 2010, acusado de 52 estupros de suas próprias pacientes.
#EstuproNuncaMais
'Governo' Temer: fatiar o Brasil aos interesses estrangeiros, dos rentistas e do capital privado
Jandira Feghali (*)
Parece filme de comédia, tipo pastelão, mas é um terror da pior espécie a que assistimos no país. A chegada do governo 'interino' é uma afronta a todas as conquistas democráticas nos últimos 13 anos. Acabaram com tudo em 6 dias, varrendo direitos e protagonismos sociais para debaixo do tapete deles já altamente imundo.
A entrada de Temer na presidência como um “golpe branco” nunca foi tão bem revelado após o vazamento de gravações do diálogo entre os senadores Romero Jucá, Renan Calheiros e José Sarney com o ex-presidente da Transpetro, Sergio Machado – ex lider do PSDB e atual membro do PMDB e por isso conhece muito bem as entranhas do ninho. Ficou óbvio para a sociedade e o mundo que a derrubada da presidente Dilma Rousseff foi uma tentativa de abafar a operação Lava-Jato e interromper as investigações em curso.
Conversas nada republicanas como essas sinalizam que os golpistas usurparam violentamente o governo e deram de ombros para o povo. Achincalharam nossa História e patrocinaram uma ruptura democrática jamais vista em mais de três décadas. E o pacote de maldades, costurados de forma ilegítima, será entregue à nação sem diálogo algum. Um absurdo sem tamanho.
Os diálogos da alta cúpula golpista revelam também a misteriosa face do presidente tucano, o senador Aécio Neves. O que deixaria este outro golpista tão assustado em relação ao senador Delcidio? E que tipo de esquema estaria por trás de Aécio, dito com tanta veemência por Machado? Perguntas que só a Procuradoria Geral da República pode e deve responder.
Como relator do caso Aécio, o ministro Gilmar Mendes suspendeu as investigações tendendo a abafar o caso do candidato derrotado em 2014. A cumplicidade entre o magistrado e a turma do retrocesso é sem igual.
Tem sido apurado na mídia alternativa que o próprio presidente interino, Michel Temer, teria sido alvo de gravação por Machado. As gravações revelariam verdades inconfessáveis do golpista e poderia pôr seus planos por água abaixo.
Há um conteúdo que deve ser levado em conta: Dilma é uma mulher honesta e, com ela na presidência, não haveria interrupção das investigações da Lava-Jato. Isso fica claro em conversa gravada por Renan e Machado.
Cabe-nos, democratas e progressistas, exigir a suspensão do afastamento de Dilma. Não há nenhum tipo de legitimidade do governo em curso e não haverá trégua se ele permanecer com tantas provas do golpe à vista.
É com orgulho que vejo os movimentos de ocupação tomando os espaços públicos referentes à Cultura, como resistência ao ato da extinção do MinC. Apesar do retorno da pasta com status de ministério, o simbólico de atraso ainda permanece. Não há possibilidade de avanço algum num mar de retrocessos.
Pés firmes no asfalto das ruas para continuar a luta contra essa imoralidade que se tem mostrado o Governo Temer. Uma reunião de pessoas sob suspeição tentando fatiar o Brasil aos interesses estrangeiros, dos rentistas e do capital privado, e na perspectiva ja anunciada de supressão de direitos e programas sociais. É um momento agudo de nossa trajetória, mas não recuaremos um milímetro sequer. Como ensinam os movimentos sociais da Cultura: “ocupar e RESISTIR!”.
(*) Jandira Feghali é médica e deputada federal (PCdoB/RJ).
Cunha manda e governo Temer terá que se ajoelhar, diz Dilma
MÔNICA BERGAMO
Marlene Bergamo/Folhapress
A presidente afastada, Dilma Rousseff, deu entrevista exclusiva à Folha no Palácio da Alvorada
Os garçons do Palácio da Alvorada ainda servem café quente para a presidente afastada Dilma Rousseff. Na quinta-feira passada (26), ela recebeu a Folhapara uma entrevista e pediu que servissem também "alguma comidinha". Foi prontamente atendida, mas reclamou: "Não tem pão de queijo?".
Dilma, segundo assessores, segue mais Dilma do que nunca. Acorda cedo, despacha, dá bronca, exige pontualidade e se apega a detalhes.
Aparenta estar forte e até algo aliviada longe da rotina do Palácio do Planalto, de onde foi afastada depois que o Senado votou pela abertura do impeachment, há 18 dias. Diz que não sente falta de nada. "Eu trabalho o mesmo tanto. Só que agora faço outras coisas", afirma.
Recebe senadores, deputados, ex-ministros. Com eles, participa de discussões em redes sociais. "Temos que defender o nosso legado. E com pouco recurso. Atualmente nós temos um blog. Ele nos consome", afirma.
Na semana passada, acompanhou cada detalhe da divulgação, pela Folha, de gravações feitas pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado com os senadores Romero Jucá e Renan Calheiros e com José Sarney.
"As razões do impeachment estão ficando cada vez mais claras", afirma, sorrindo. As conversas revelam tentativas de interferir na Operação Lava Jato e a opinião de que, se Dilma saísse do governo, as investigações poderiam arrefecer.
Dilma não poupa críticas ao governo interino de Michel Temer e diz que ele terá que "se ajoelhar" para Eduardo Cunha, com quem "não há negociação possível".
Leia a seguir os principais trechos da conversa:
*
Folha - Vamos começar falando sobre o impeachment.
Dilma Rousseff - Pois não.
A senhora precisa ter 27 votos contrários a ele no Senado.
É melhor falar que precisamos de 30...
E só teve 22 na votação da admissibilidade. Acredita mesmo que pode voltar?
Nós podemos reverter isso. Vários senadores, quando votaram pela admissibilidade [do processo de impeachment], disseram que não estavam declarando [posição] pelo mérito [das acusações, que ainda seriam analisadas]. Então eu acredito.
Sobretudo porque as razões do impeachment estão ficando cada vez mais claras. E elas não têm nada a ver com seis decretos ou com Plano Safra [medidas consideradas crimes de responsabilidade].
Fernando Henrique Cardoso assinou 30 decretos similares aos meus. O Lula, quatro. Quando o TCU disse que não se podia fazer mais [decretos], nós não fizemos mais. O Plano Safra não tem uma ação minha. Pela lei, quem executa [o plano] são órgãos técnicos da Fazenda.
Ou seja, não conseguem dizer qual é o crime que eu cometi. Em vista disso, e considerando a profusão de detalhes que têm surgido a respeito das causas reais para o meu impeachment, eu acredito que é possível [barrar o impedimento no Senado].
A senhora se refere às conversas telefônicas gravadas pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, com os senadores Romero Jucá e Renan Calheiros e com o ex-presidente José Sarney?
Eu li os três [diálogos]. Eles mostram que a causa real para o meu impeachment era a tentativa de obstrução da Operação Lava Jato por parte de quem achava que, sem mudar o governo, a "sangria" continuaria. A "sangria" é uma citação literal do senador Romero Jucá.
Outro dos grampeados diz que eu deixava as coisas [investigações] correrem. As conversas provam o que sistematicamente falamos: jamais interferimos na Lava Jato. E aqueles que quiseram o impeachment tinham esse objetivo. Não sou eu que digo. Eles próprios dizem.
E a crise na economia, a falta de apoio do governo no Congresso, não contaram?
O [economista e prêmio Nobel Joseph] Stiglitz fez um diagnóstico perfeito [sobre o Brasil]: a crise econômica é inevitável. O que não é inevitável é a combinação danosa de crise econômica com crise política. O que aconteceu comigo? Houve a combinação da crise econômica com uma ação política deletéria. Todas as tentativas que fizemos de enviar reformas para o Congresso foram obstaculizadas, tanto pela oposição quanto por uma parte do centro politico, este liderado pelo senhor Eduardo Cunha.
Pior: propuseram as "pautas-bomba", com gastos de R$ 160 bilhões. O que estava por trás disso? A criação de um ambiente de impasse, propício ao impeachment. Cada vez que a Lava Jato chegava perto do senhor Eduardo Cunha, ele tomava uma atitude contra o governo. A tese dele era a de que tínhamos que obstruir a Justiça.
A senhora então sustenta que o impeachment foi apenas uma tentativa de se barrar a Operação Lava Jato.
Foi para isso e também para colocarem em andamento uma política ultraliberal em economia e conservadora em todo o resto. Com cortes drásticos de programas sociais. Um programa que não tem legitimidade pois não teve o respaldo das urnas.
Não foi um equívoco político confrontar um adversário com tanto poder e influência no parlamento como Cunha?
Desde 1988, o PMDB foi o centro do espectro político. E participou da estruturação tanto dos governos do PSDB quanto dos governos do PT, sendo fator de estabilidade.
Mas, a partir do meu primeiro mandato, esta parte [PMDB] que era para ser centro passa a ter um corte de direita conservadora, com uma pessoa extremamente aguerrida na sua direção.
Você passa a ter, de um lado, 25% [dos parlamentares] ligados à ala progressista, outros 20% à ala que já foi social-democrata. E, no meio, 55% sob o controle do senhor presidente da Câmara afastado, Eduardo Cunha. A situação do Brasil, se isso não for desmontado, é gravíssima.
Mas era melhor cair a fazer um acordo político com ele?
Fazer acordo com Eduardo Cunha é se submeter à pauta dele. Não se trata de uma negociação tradicional de composição. E sim de negociação em que ele dá as cartas.
Jamais eu deixaria que ele indicasse o meu ministro da Justiça [referindo-se ao fato de o titular da pasta de Temer, Alexandre de Moraes, ter sido advogado de Cunha]. Jamais eu deixaria que ele indicasse todos os cargos jurídicos e assessores da subchefia da Casa Civil, por onde passam todos os decretos e leis.
A senhora se refere a nomeações do governo interino?
Podem falar o que quiserem: o Eduardo Cunha é a pessoa central do governo Temer. Isso ficou claríssimo agora, com a indicação do André Moura [deputado ligado a Cunha e líder do governo Temer na Câmara]. Cunha não só manda: ele é o governo Temer. E não há governo possível nos termos do Eduardo Cunha.
Não haverá, na sua opinião, governo Temer possível?
Vão ter de se ajoelhar.
Voltando à Lava Jato, houve pressão sobre a senhora para interferir na operação?
Era muito difícil fazer pressão sobre mim, querida.
Há relatos de pressão de Lula e do PT para que a senhora demitisse o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.
Tanto não é verdade que José Eduardo saiu no final. E para o lugar dele foi um procurador [Eugênio Aragão].
Delcídio do Amaral afirmou em delação que a senhora indicou o ministro Marcelo Navarro para o STJ (Superior Tribunal de Justiça) para ajudar a soltar empreiteiros presos.
É absurda a questão do Navarro. Eu não tenho nenhum ato de corrupção na minha vida. Não conseguirão [acusá-la]. Por isso escolhem seis decretos e um Plano Safra [para embasar o impeachment].
Há rumores de que o empreiteiro Marcelo Odebrecht acusará a senhora, em delação premiada, de ter pedido dinheiro a ele na campanha em 2014, o que teria resultado em pagamentos ao marqueteiro João Santana por meio de caixa dois.
Eu jamais tive conversa com o Marcelo Odebrecht sobre isso.
Nem com o João Santana?
Eu paguei R$ 70 milhões para o João Santana [na campanha de 2014], tudo declarado para o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Onde é que está o 'caixa dois'?
A senhora já teve quantos encontros com Odebrecht?
Muito poucos. Eu não recebi nunca o Marcelo no [Palácio da] Alvorada. No Planalto, eu não me lembro. Recordo que encontrei o Marcelo Odebrecht no México, o maior investimento privado do país é da Odebrecht com um sócio de lá. Conversamos a respeito do negócio, ele queria que déssemos um apoio maior. Uma conversa absolutamente padrão do Marcelo.
Ajuste fiscal de Temer é tão pornográfico
quanto Alexandre Frota no Ministério
da Educação
Carlos Fernandes
Revoltado online e Frota simbolizam o governo interino
O projeto de ajuste fiscal apresentado esses dias pela equipe econômica de Temer oferece um excelente panorama das prioridades de um governo não só ilegítimo como pautado pela mais gritante falta de sensibilidade social.
De todo o universo de setores da máquina estatal que se poderia reduzir gastos para o equilíbrio das contas públicas, primaram por escolher exatamente as áreas mais sensíveis e que mais impactam no cotidiano da população mais pobre e carente do país.
A proposta de desobrigação de investimentos mínimos na saúde e educação é simplesmente um descalabro. Só o pleno desconhecimento de nossa realidade aliado ao descompromisso com um futuro digno para essa nação poderiam sugerir que devemos gastar cada vez menos – e não mais – com temas dessa natureza.
Aliás, o futuro é outro ponto que se torna cada vez mais incerto. Outra proposta indecente que ganha força é a desvinculação de benefícios, incluindo os da previdência, dos reajustes concedidos ao salário mínimo. Aposentados assalariados serão as principais vítimas.
No alvo da política neoliberal requentada da era FHC ainda se encontram os direitos do trabalhador garantidos por lei. Sob a canalhice do discurso de se criar relações mais “dinâmicas” entre empregado e empregador, oculta-se o desastre que significa, para os trabalhadores, a flexibilização das leis trabalhistas.
Todo esse retrocesso nas conquistas históricas do povo brasileiro é fruto de apenas alguns dias da interinidade do governo Temer. A manutenção dessa política PSDBista significará inevitavelmente o aprofundamento da desigualdade social que vinha sendo combatido no decurso dos últimos treze anos.
Até porque nada, absolutamente nada que diz respeito a medidas como taxações de grandes fortunas ou cortes nos gastos da manutenção da atividade parlamentar foram tocados. Afinal, não foi pra isso que a plutocracia financiou o golpe.
O que Michel Temer e sua equipe de notórios planejam realmente para o país passa longe do saneamento das contas públicas e da moralização da política brasileira. Dois fatos recentes deixam isso muito claro.
Um é o aumento descabido e injustificado do aumento da previsão do déficit público de R$ 96 bilhões para R$ 170,5 bilhões em 2016 'providencialmente' aprovado pelos nossos 'valiosos' membros do Congresso Nacional.
Outro é a inestimável visita de Alexandre Frota e Marcelo Reis ao Ministério da Educação com políticas para a pasta diretamente proporcionais ao conhecimento de ambos sobre o assunto.
Pois é, mal começou e o governo interino de Temer já se transformou num trailer de um grande filme pornô.
FATOR SERGIO
MACHADO
PODE VIRAR VOTOS
NO SENADO
As gravações que expuseram aliados do presidente interino, Michel Temer, incluindo dois senadores do PMDB, aprofundaram um ambiente de incerteza e preocupação no governo provisório diante de uma margem apertada pró-impeachment de Dilma Rousseff no Senado. Pelo menos, 14 senadores que votaram a favor do afastamento da presidente ainda não tem pos ição fechada sobre o julgamento final, o que inviabiliza a continuidade de Temer.
A reação dos senadores do grupo que ainda não declarou voto no mérito do impeachment tem sinalizado alerta para Temer. O resultado final do impeachment tende a ser influenciado pelo sucesso ou não do governo interino e dos rumos da Lava Jato sobre o PMDB.
"Achei o começo do Temer muito ruim e a votação, assim como ocorreu com Dilma, também vai levar em conta o conjunto da obra do governo. Não contem que essa votação já está certa", disse Cristovam Buarque (PPS-DF), um dos 14 senadores que votaram a favor do afastamento de Dilma, mas não anunciaram posição sobre a condenação.
Para o senador, é preciso que se investigue a fundo as suspeitas contidas nas conversas gravadas por Sérgio Machado com Renan Calheiros (PMDB-AL), Romero Jucá (PMDB-RR)e José Sarney.
A conta hoje no Senado indica que a votação final do impeachment deve ser apertada. A tendência é que os 22 senadores que votaram com Dilma no dia 12 de maio, quando ela foi afastada, não mudem de posição porque integram a base fiel à petista.
Ao todo, 55 votaram pela abertura do processo, um voto a mais que o mínimo necessário para que seja condenada e deixe o cargo em definitivo.
Três senadores não estiveram na sessão que afastou Dilma temporariamente. Deles, Pedro Chaves (PSC-MS), empossado no lugar do cassado Delcídio do Amaral ex-PT-MS), tende a se somar à bancada pró-impeachment.
Jader Barbalho (PMDB-PA), em tratamento médico, é ligado às gestões petistas, mas seu filho é ministro da Integração Nacional de Temer. O senador não declara posição.
Eduardo Braga (PMDB-AM) se opõe à saída de Dilma, mas sua presença é dúvida, pois está de licença médica. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), não deve votar.
Nesse cenário de possíveis 56 votos favoráveis à cassação, bastaria que três senadores votassem contra para que o patamar mínimo de 54 não seja alcançado. Se isso ocorrer, Dilma volta ao Planalto.
Em meio a isso, petistas tentam articular a formação de um grupo suprapartidário de cerca de 30 congressistas que poderiam votar contra o impeachment mediante um acordo com Dilma para que, uma vez de volta, ela viabilizasse um caminho para convocar novas eleições.
Os 14 senadores que votaram para afastar Dilma, mas não se posicionam sobre o julgamento final são:
Antonio Carlos Valadares (PSB-SE) - Acir Gurgacz (PDT-RO) - Benedito de Lira (PP-AL) - Cristovam Buarque (PPS-DF) - Edison Lobão (PMDB-MA) - Fernando Collor (PTC-AL) - Hélio José (PMDB-DF) - José Antonio Reguffe (s/ part.DF) - José Maranhão (PMDB-PB) - Marcelo Crivella (PRB-RJ) - Omar Aziz (PSD-AM) - Raimundo Lira (PMDB-PB) - Roberto Rocha (PSB-MA) - Wellington Fagundes (PR-MT).
Anatomia
do golpe: as(visíveis) pegadas norte-americanas
“O golpe em curso no Brasil é sofisticada operação político-financeira-jurídico-midiática , tipo guerra híbrida. E será muito difícil deslindá-la", diz o jornalista Pepe Escobar. E mais difícil fica na medida em que surgem contradições entre seus próprios artífices. A enxurrada de conversas que Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro e um dos operadores do Petrolão, teve e gravou com cardeais do PMDB, induz à ilusória percepção de que o impeachment da presidente Dilma Rousseff foi apenas um golpe tupuniquim, armado pela elite política carcomida para deter a Lava Jato e lograr a impunidade. O procedimento “legal” que garantiu a troca de Dilma por Temer, para que ele faça o que está fazendo, foi peça de operação maior e mais poderosa desencadeada ainda em 2013 para atender a interesses internos e internacionais. E nela ficaram pegadas da ação norte-americana.
Interesses internos: remover Dilma, criminalizar o PT, inviabilizar Lula como candidato a 2018 e implantar uma política econômica ultra-liberal, encerrando o ciclo inclusivo e distributivista. Interesses externos: alterar a regra do pré-sal e inverter a política externa multilateralista que resultou nos BRICS, na integração sul-americana e em outros alinhamentos Sul-Sul.
As gravações de Machado desmoralizam o processo e seus agentes e complicam a evolução do governo Temer mas nem por isso o inteiro teor da trama pode ser reduzido à confissão de Romero Jucá, de que uma reunião de caciques do PMDB, PSDB, DEM e partidos conservadores menores, em reuniões noturnas, decidiram que era hora de afastar Dilma para se salvarem. E daí vieram a votação de 17 de abril na Câmara, a farsa da comissão especial e a votação do dia 11 de maio no Senado.
Um longo caminho, entretanto, foi percorrido até que estes atos “legais” fossem consumados. Para ele contribuíram a Lava Jato e suas estrelas, a Fiesp com seu suporte a grupos pró-impeachment e o aliciamento de deputados, o mercado com seus jogos especulativos na bolsa e no câmbio para acirrar a crise, Eduardo Cunha e seus asseclas com as pautas bombas na Câmara. E também as obscuras mas perceptíveis ações da NSA, Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, e da CIA, na pavimentação do caminho e na fermentação do clima propício ao desfecho. Os grampos contra Dilma, autoridades do governo e da Petrobrás, os protestos contra o governo, o desmanche econômico e a dissolução da base parlamentar, tudo se entrecruzou entre 2013 e 2016.
Se os que aparecem agora nas conversas gravadas buscaram poder, impunidade e retrocesso ao país de poucos e para poucos, os agentes externos miraram o projeto de soberania nacional e o controle de recursos estratégicos, em particular o petróleo do Pré-Sal. Não por acaso, a aprovação do projeto Serra, que suprime a participação mínima obrigatória da Petrobrás, em 30%, na exploração de todos os campos licitados, entrou na agenda de prioridades legislativas do novo governo.
Muito já se falou da coincidente chegada ao Brasil, em agosto de 2013, de Liliana Ayalde como embaixadora dos Estados Unidos, depois de ter servido no Paraguai entre 2008 e 2011, saindo pouco antes do golpe parlamentar contra o ex-presidente Fernando Lugo. Num telegrama ao Departamento de Estado, em 2009, vazado por Wikileaks, ela disse:. “Temos sido cuidadosos em expressar nosso apoio público às instituições democráticas do Paraguai – não a Lugo pessoalmente”. E num outro, mais tarde : “nossa influência aqui é muito maior que as nossas pegadas”.
O que nunca se falou foi que a própria presidente Dilma, tomando conhecimento dos encontros que Ayalde vinha tendo com expoentes da oposição no Congresso, mandou um emissário avisá-la de que via com preocupação tais movimentos. Eles cessaram, pelo menos ostensivamente. Ayalde havia chegado pouco antes da Lava Jato esquentar e no curso da crise diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos, detonada pela denúncia do Wikleaks de que a NSA havia grampeado Dilma, Petrobrás e outros tantos. Segundo Edward , o ex-agente da NSA que denunciou a bibilhotagem, “em 2013 o Brasil foi o país mais espionado do mundo”. Em Brasília funcionou uma das 16 bases americanas de coleta de informações, uma das maiores.
A regra de exploração do pré-sal e a participação do Brasil nos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, India. Chia e Africa do Sul), especialmente depois da criação, pelo bloco, de um banco de desenvolvimento com capital inicial de US 100 bilhões, encabeçaram as contrariedades americanas com o governo Dilma.
Recuemos um pouco. Em dezembro de 2012, as jornalistas Cátia Seabra e Juliana Rocha publicaram na Folha de São Paulo telegrama diplomático vazado por Wikileaks, relatando a promessa do candidato José Serra a uma executiva da Chevron, de que uma vez eleito mudaria o modelo de partilha da exploração do pré-sal fixado pelo governo Lula: a Petrobrás como exploradora única, a participação obrigatória de 30% em cada campo de extração e o conteúdo nacional dos equipamentos. Estas regras, as petroleiras americanas nunca aceitaram. Elas querem um campo livre como o Iraque pós-Saddam. A Folha teve acesso a seis telegramas relatando o inconformismo delas com o modelo e até reclamando da “falta de senso de urgência do PSDB”. Serra perdeu para Dilma em 2010 mas como senador eleito em 2014, apresentou o projeto agora encampado pelo governo Temer.
No primeiro mandato, Dilma surfava em altos índices de popularidade até que, de repente, a pretexto de um aumento de R$ 0,20 nas tarifas de ônibus de São Paulo, estouraram as manifestações de junho de 2013. Iniciadas por um grupo com atuação legítima, o Movimento Passe Livre, elas ganharam adesão espontânea da classe média (que o governo não compreendeu bem como anseio de participação) e passaram a ser dominadas por grupos de direita que, pela primeira vez, davam as caras nas ruas. Alguns, usando máscaras. Outros, praticando o vandalismo. Muitos inocentes úteis entraram no jogo. Mais tarde é que se soube que pelo menos um dos grupos, o MBL, era financiado por uma organização de direita norte-americana da família Coch. E só recentemente um áudio revelou que o grupo (e certamente outros) receberam recursos também do PMDB, PSDB, DEM e SD.
Aparentemente a ferida em Dilma foi pequena. Mas o pequeno filete de sangue atiçou os tubarões. Começava a corrida para devorá-la. A popularidade despencou, a situação econômica desandou, veio a campanha de 2014 e tudo o que se seguiu.
Mas, naquela altura, a espionagem da NSA já havia acontecido, tendo talvez como motivação inicial a guerra do pré-sal. Escutando e gravando, encontraram outra coisa, o esquema de corrupção. E aqui entram os sinais de que as informações recolhidas foram decisivas para a decolagem da Lava Jato. Foi logo depois do Junho de 2013 que as investigações avançaram. A partir da prisão do doleiro Alberto Yousseff, numa operação que não tinha conexão com a Petrobrás, o juiz federal Sergio Moro consegue levar para sua alçada em Curitiba as investigações sobre corrupção na empresa que tem sede no Rio, devendo ter ali o juiz natural do caso. Moro havia participado, em 2009, segundo informe diplomático também vazado por Wikileaks, de seminário de cooperação promovido pelo Departamento de Estado, o Projeto Pontes, destinado a treinar juízes, procuradores e policiais federais no combate à lavagem de dinheiro e contraterrorismo. Participaram também agentes do México, Costa Rica, Panamá, Argentina, Uruguai e Paraguai. Teria também muitas conexões com procuradores norte-americanos.
Com a prisão de Yousseff, a Lava Jato deslanchou como um foguete. Os primeiros presos já se defrontavam com uma força tarefa que detinha um mundo de informações sobre o esquema na Petrobrás. Executivos e sócios de empreiteiras rendiam-se às ofertas de delação premiada diante da evidência de que negar era inútil, só agravaria suas penas. O estilo espetaculoso das operações e uma bem sucedida tática de comunicação dos procuradores e delegados federais semeou a indignação popular. Vazamentos seletivos adubaram o ódio ao PT como “cérebro” do esquema.
As coisas foram caminhando juntas, na Lava Jato, na economia e na política. A partir do início do segundo mandato de Dilma, ganharam sincronia fina. Na Câmara, Eduardo Cunha massacrava o governo e a cada derrota o mercado reagia negativamente. A Lava Jato, com a ajuda da mídia, envenenava corações e mentes contra o governo. Os movimentos de direita e pró-impeachment ganharam recursos e músculos para organizar as manifestações que culminaram na de 15 de março. A Fiesp entrou de cabeça na conspiração e a Lava Jato perdeu todo o pudor em exibir sua face política com a perseguição a Lula, a coerção para depor no aeroporto de Congonhas e finalmente, quando ele virou ministro, a detonação da última chance que Dilma teria de rearticular a coalizão, com o vazamento da conversa entre os dois.
No percurso, Dilma e o PT cometeram muitos erros. Erros que não teriam sido fatais para outro governo, não para um que já estava jurado de morte. Mas este não é o assunto agora, nesta revisitação em busca da anatomia do golpe.
Em março, a ajuda externa já fizera sua parte mas as pegadas ficaram pelo caminho. O governo já não conseguia respirar. Mas, pela lei das contradições, a Lava Jato continuou assustando a classe política, sabedora de que poderia “não sobrar ninguém”. É quando os caciques se reuniram, como contou Jucá, e decidiram que era hora de tirar Dilma “para estancar a sangria”.
Desvendar a engrenagem que joga com o destino do Brasil desde 2013 é uma tentação frustrante. Faltam sempre algumas peças no xadrez. Mas é certo que, ainda que incompleta, a narrativa do golpe não é produto de mentes paranoicas. No futuro, os historiadores vão contar a história inteira de 2016, assim como já contaram tudo ou quase tudo sobre 1964.