terça-feira, 1 de novembro de 2016

Não  tenho  dúvida  de  que  a Universal  vai  alçar  voos  mais altos”, diz professor de  religião

Kiko Nogueira               


    Sangue de Cristo tem poder
Sangue de Cristo tem poder

Publicado na DW...

A vitória do bispo licenciado Marcelo Crivella na eleição municipal do Rio de Janeiro, nesse último domingo (30/10), marca uma nova etapa na trajetória dos pastores evangélicos na política brasileira. Eleito com 59,37% dos votos válidos, Crivella vai comandar a prefeitura da segunda maior cidade do Brasil e uma das principais vitrines do país, com orçamento de 31 bilhões de reais.
Com essa vitória, o projeto político dos pastores evangélicos finalmente conseguiu ir além do nicho que vem sendo cultivado na Câmara Federal – além dos Legislativos estaduais e municipais – e mostrar que também tem força em eleições majoritárias.
Sua ascensão também deve catapultar a influência do PRB, o partido dominado por membros da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). A denominação religiosa é comandada por Edir Macedo, que é também tio de Crivella e controla a Rede Record, a segunda maior emissora de TV do país. “É uma igreja com um projeto de poder que apresenta condições de colocá-lo em prática. A própria estrutura da Universal parece a de um partido ou de uma empresa”, afirma Edin Abumanssur, professor de Sociologia da Religião da PUC-SP.
O PRB registrou um aumento de 31% no número de prefeitos e 33% no de vereadores nestas eleições. Em 2017, vai administrar 105 prefeituras. Mas o avanço dos evangélicos não se deu apenas com o PRB.
Neste ano, as 26 capitais brasileiras contaram com mais de 250 candidatos que se identificaram como “pastores”, “missionários” ou “bispos” de diversas denominações. Na cidade como São Paulo, a bancada de evangélicos subiu de sete para treze vereadores (quase um quarto do total da Câmara).
A ascensão de Crivella e de outras figuras é influenciada pelo aumento da proporção de evangélicos no país. O Brasil continua sendo o maior país católico do mundo, mas o último censo mostrou que a população de evangélicos subiu de 15,4% em 2000 para 22,2% naquele ano. Segundo pesquisa do instituto Datafolha, 33% dos 4,9 milhões de eleitores registrados no Rio se identificam como evangélicos. Um levantamento antes do pleito mostrou que 91% deles apoiavam a candidatura de Crivella.
Imagem e retórica
Políticos evangélicos já exercem influência decisiva na política carioca e fluminense desde o final dos anos 90. O Estado do Rio já foi governado entre 1999 e 2006 por uma orquestração de políticos evangélicos que contou com Anthony Garotinho. Só que nenhum deles iniciou a trajetória política nas fileiras de uma igreja ou é tão fortemente identificado com uma denominação específica como Crivella, que se licenciou como bispo da IURD para disputar sua primeira eleição para o Senado, em 2002.
Para vencer a prefeitura do Rio, Crivella acabou tendo que moderar seu tom. Em 2008, quando se lançou pela primeira vez à prefeitura, foi derrotado ainda no primeiro turno. À época, fez uso de discurso religioso e provocou controvérsia ao atacar um de seus adversários, que defendia direitos de homossexuais, afirmando com desprezo que este promovia “o homem com homem”.
“Nem todo o Brasil é evangélico. Eles podem formar uma bancada numa eleição proporcional, mas esses votos não são suficientes para conquistar o Executivo. Para ir além dos seus fiéis, os políticos evangélicos têm que fazer concessões, especialmente no tom religioso. Elas não precisam tanto ser nos costumes, já que o brasileiro em geral é conservador”, afirma Abumanssur.
Para Christina Vital, professora de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF), Crivella ofereceu diferentes motivos para votar do que simplesmente a religião. “Ele enfatizou muito o discurso do cuidado com a população, sobre a qualidade dos serviços. A própria IURD tem um lado liberal na economia que tem apelo entre empresários. No Legislativo, os pastores podem falar só para sua base, mas no Executivo tem que falar com toda a sociedade”, afirmou.
Em um debate na eleição deste ano, Crivella exemplificou sua nova abordagem para conquistar eleitores fora do nicho evangélico ao responder a uma acusação de um adversário. “Você está preocupado com a minha igreja? E a fila dos hospitais? Interessa para eles se eu sou católico, espírita, umbandista ou evangélico?”, disse o político na ocasião.
O candidato chegou a dizer na TV: “Eu jamais misturei política com religião” – apesar de sua ficha demonstrar que isso não é verdade. No Senado, ele promoveu projetos que beneficiavam diretamente igrejas, como uma proposta de isentar do pagamento de IPTU os imóveis alugados utilizados para cultos.
Voos mais altos
Para Abumanssur, mesmo que Crivella tenha apenas disfarçado sua tendência religiosa, não vai ser tão simples para ele implementar uma agenda religiosa numa cidade como o Rio. “Existem questões jurídicas e políticas difíceis de contornar. A principal pauta dos evangélicos está ligada aos costumes. Só que isso não é tema de competência de uma prefeitura”, afirmou.
Segundo Abumanssur, o provável papel de Crivella será de mostrar a um público mais amplo que pastores são capazes de administrar uma cidade. “Não tenho dúvidas de que a Universal quer alçar voos mais altos.
Vital também afirma que Crivella deve deixar a religião de lado na administração e mostrar uma face amigável de políticos religiosos. “Existem, sim, áreas em que se pode promover uma agenda religiosa em uma prefeitura, como a educação. Mas Crivella deve se concentrar em fazer uma gestão eficiente para produzir uma vitrine para os evangélicos e expandir o eleitorado”, afirma. “Ele é parte de um projeto amplo de ocupação do Executivo, que quer conquistar governos e até mesmo a Presidência e que, aí sim, vai deixar sua marca na cultura e na sociedade. Esse projeto envolvendo o Executivo também deseja influenciar o Judiciário.
Em 2012, mesmo ano em que sugeriu que os gays podem ser fruto de aborto malsucedido, Crivella declarou durante um encontro com pastores da IURD registrado em vídeo que os brasileiros ainda vão “eleger um presidente da República que vai trabalhar para nós e nossas igrejas”.

Pequena história  de

uma grande farsa – I

Os bons resultados econômicos – embora já não exuberantes como no segundo mandato de Lula – foram sem qualquer dúvida o que elegeu Dilma em 2014.
No final daquele ano, porém, já se brigava com uma  recessão que se tornaria pesadíssima e que serviu como caldo de insatisfação para a cruzada da mídia que apontava a esquerda como corrupta e imoral.
Nele jogou-se o poderoso fermento do inconformismo dos derrotados, com Aécio Neves à frente, o súbito ódio das corporações de estado e e o dueto Moro-Globo.
A corrupção  – que, em tese, não produziu nenhum efeito macroeconômico nos tempos de bonança, curioso – passou a ser a responsável  pela crise. A derrubada do governo e a ortodoxia econômica – já semi-implantada com Joaquim Levy, aliás – deram a hegemonia – ao menos na superfície das relações de comunicação da sociedade, às saídas conservadoras como “salvação da lavoura”.
O povo, claro, não quer saber de crise e não quer saber de corrupção e, como passou a ouvir o dia inteiro e todo dia que ambas eram fruto do mesmo PT que, antes, trouxera abundância  e reforçara os mecanismos de controle e repressão aos desvios na administração – seria infindável a lista do que foi feito, a começar pela delação premiada. 
Nosso povão está “na  dele” e, se o iludem, culpa de que não pôde e não soube esclarecê-lo.
A eterna baboseira da direita, e de que é preciso “liberar a iniciativa privada” – como se ele já não fosse livre para quase tudo – era repetida desde o “Bom Dia, Brasil aos “boa noite, Brasil”, embora já não houvesse nada de bom (nem de dia, nem de noite)  no Brasil dentro dos jornais, telejornais, radiojornais e ciberjornais.
Os fatos não vêm ao caso.
O Rio, apesar da incompetência e das sem-vergonhices das gestões cabralinas afundou por conta do despencar dos preços do petróleo, mas isso é um detalhe fora do powerpoint. A indústria  associada ao petróleo, assistiu quietinha à grita pelo fim do conteúdo nacional e, depois do golpe, foi pedir, pós golpe, proteção a indústria nacional de óleo e gás. Levou uma banana.
Acabou com o financiamento de empresas, mas se permitiu o financiamento censitário, prosperam sonhos de ascensão e ilusões de meritocracia de milionários como Dória, e as redes religiosas como Crivella.
Lula recebeu o governo pelo voto, mas também porque se esperava seu fracasso. Quando este não veio, puseram-se a querer faze-lo sangrar com o mensalão. Não deu…
E veio o grande salto que fez o tsunami da crise mundial virar marolinha e fazer o país desenvolver-se economicamente como há décadas não se via.
Eleita Dilma, veio o canto de sereia: faxine, Presidenta, faxine…
E a nova tática, ao gosto de uma classe média que não dá a menor bola para que a maioria viva na Índia, desde que ela viva na Bélgica.
(Parêntesis: se a Bélgica vive os pavores dos atentados, porque aqui não se viveria o pavor da violência com os nossos “refugiados sírios” do outro lado da rua?)
Então a direita, sempre esperta e criativa, largou o discurso do neoliberalismo e vestiu o “Padrão Fifa”. Não eram só os 20 centavos, mas trilhões o que estava em jogo diante da possibilidade daquele modelo nacional desenvolvimentista dar certo. E reclamava-se dos hospitais, das escolas, dos postos de saúde(onde a classe média não vai)por serem precários, em contraste com a modernidade dos estádios da Copa onde, afinal, só eles foram.

Secundaristas são perseguidos

e   espancados  por  policiais     

em  São  Paulo                                 


 

A resposta que o governador  Geraldo Alckmin tem dado às manifestações e ocupações de secundaristas em São Paulo, contra o fechamento de escolas no estado e, mais recentemente, contra a PEC da Maldade (241/2016), é preocupante e revela, mais uma vez, a fragilidade da democracia no país. 
Por outro lado, aponta para a capacidade de mobilização e força desses jovens, algo inesperado para os cabeças de planilha, lotados na administração pública e distantes dos reais anseios da população que é a democracia participativa. Alckmin comprovou estar distante dessa nova política, não apenas ao propor seu programa de reorganização escolar, sem antes dialogar diretamente com estudantes, professores e mães e pais de alunos, mas pela forma como vem utilizando agentes da Segurança Pública do Estado para perseguir, coagir e até espancar estudantes. 
Não parecia que a gestão Alckmin chegaria a esse ponto, ao revogar, em dezembro de 2015, o decreto que propunha a reorganização escolar. Mas a atitude do governador foi um engodo. O fechamento de escolas e salas de aula está em andamento, como você verá nos números apresentados ao final desta matéria e, pior ainda, jovens ligados diretamente às manifestações estão sendo perseguidos e sofrendo abusos físicos. 
O volume de casos é tão expressivo que levou o Comitê de Mães e Pais em Luta, criado para defender os filhos secundaristas, a preparar um dossiê com relatos dos casos de violência que foi entregue ao Ministério Público de São Paulo e também à Comissão Internacional de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA). 
O documento, assinado por diversas entidades, dentre elas o Núcleo de Direitos Humanos e o Núcleo de Situação Carcerária, ambos da Defensoria Pública, foi aceito por esse último órgão, levando à realização de uma audiência em abril deste ano em Washington, Estados Unidos. A sessão contou com a presença de representantes de estudantes, do Comitê de Mães e Pais em Luta e também do procurador-geral do Estado, Elival da Silva Ramos, que fez o seu papel de defender o governo Alckmin. 
A polícia paulistana é acusada de carregar uma lista com fotos e nomes de secundaristas e apoiadores do movimento. Ao ser abordado, o jovem é obrigado a reconhecer os colegas apresentados nas imagens. Quem não consegue, é espancado. Apesar da denúncia internacional, em abril, as perseguições não cessaram, pelo contrário, se tornaram mais frequente e violentas, segundo fontes ouvidas pelo jornal GGN. 
Um dos casos recentes mais graves, e que até já foi veiculado na imprensa independente, é de um estudante de Paraisópolis, pego dentro de uma estação da CPTM e levado até uma pequena sala com dois policiais, sem identificação, que o interrogaram apresentando fotos de outros estudantes que o jovem precisava reconhecer dando nomes e endereços. Como o rapaz, de apenas 16 anos, se recusou a passar informações, foi brutalmente espancado até perder a consciência. 
Seu corpo, ainda com vida, foi encontrado há quilômetros de distância, por volta das quatro e meia da manhã, na Estrada de Itapecerica da Serra, por uma taxista que o levou ao hospital. Há notícias de que o jovem teria perdido 75% da visão, porém o GGN apurou que ele está recuperado, pelo menos fisicamente. 
O segundo caso mais recente, ocorreu há cerca de uma semana. Um adolescente do bairro da Liberdade ficou desaparecido, após ter sido abordado e levado pela PM. A família conseguiu encontra-lo oito dias depois, na casa de conhecidos. O jovem estava escondido, traumatizado pela tortura e decidiu se afastar, durante algum tempo, com medo que a perseguição se estendesse aos familiares. 
Segundo a professora Luciana Pereira, ligada aos secundaristas, as primeiras perseguições começaram envolvendo jovens detidos nas manifestações. "Depois de passarem pelo DP, eles são seguidos dentro de metrôs ou no caminho de casa para a escola". A polícia também trabalha com uma espécie de book, com fotos de jovens e apoiadores do movimento. 
A maioria das imagens utilizadas pela PM nas abordagens são de câmeras de segurança pública da região da Av. Paulista e das linhas do Metrô e CPTM, apontando para a participação de outras estruturas de segurança do governo do Estado na estratégia de perseguição.
O GGN conversou com uma das meninas que aparecem na lista que a PM carrega. A estudante de 16 anos, do Fernão Dias, conta que as perseguições são frequentes. 
Às vezes recebemos ligações de desconhecidos avisando para não irmos para protestos, também [somos] seguidos no caminho de casa para a escola e da escola para casa, dentro do transporte público por pessoas estranhas. Fora viaturas rondando o colégio e onde a gente mora”. 
Há também relatos de dois jovens que, retornando de manifestações, foram abordados por policiais que os obrigaram a segurar uma bomba de efeito moral nas mãos enquanto um PM ameaçava tirar o pino. “Os policiais ainda falavam que se deixasse cair no chão, iam apanhar até morrer”. 
A coerção contra os estudantes não para apenas na ação policial. Há registros de diretores que permitem a entrada de PMs nos pátios e nas salas de aula, numa alusão clara aos anos de ditadura militar. Professores aliciados pelo Estado também estariam perseguindo secundaristas envolvidos nas ocupações, reduzindo notas e, em casos em que todas as notas dos alunos são boas, reprovando-os por falta.
O filho da professora Luciana é um desses casos. “Ele não tinha nenhuma nota vermelha, já tinha sido aprovado quando eles resolveram, de forma ridícula, reprovar, porque a ficha dele está com um corretivo, onde escreveram por cima ‘detido’. Por saber um pouquinho das leis eu consegui recorrer”. 
O Comitê também tem registrado o aumento de processos administrativos contra professores que apoiam as ocupações. Luciana conta, por exemplo, que a própria Dirigente de Ensino da sua região, chegou a ligar para pais de alunos seus pedindo para processarem ela por aliciamento de menor. “Só que eu tive sorte nesse sentido, porque os pais participavam das nossas reuniões [de ocupação]". 
Reorganização silenciosa 
Pesquisas apontam que o fechamento de escolas está em andamento. Uma delas, realizada parcialmente pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), e apresentada em julho desde ano, aponta que mais de 5 mil classes foram fechadas entre 2015 e 2016, cerca de 270 mil estudantes ficaram de fora da escola e as classes oferecidas pela rede pública estadual continuavam superlotadas.  
Já um outro levantamento, realizado pela Rede Escola Pública e Universidade, mostra que, só em 2015, Geraldo Alckmin fechou 2.800 salas, mesmo tendo recebido, em 2016, cerca de 70 mil matrículas a mais do que no ano passado. Esses dados foram obtidos pela comparação do número de alunos, turmas e escolas que cada ciclo de ensino ofereceu em 2015 e 2016, conseguidos junto à Secretaria Estadual de Educação de São Paulo somente após os pesquisadores recorrerem à Lei de Acesso à Informação. 
A Rede Escola Pública e Universidade foi criada em 2015, a partir do movimento de ocupações, por professores e pesquisadores da USP, Unicamp, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal do ABC (UFABC) e Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia São Paulo (IFSP). O grupo promete divulgar, até o final de novembro, um mapa com o total de escolas e salas de aula fechadas pelo governo estadual.  

Juiz(nazista)  autoriza  tortura

para desocupação de  colégio

no  Distrito  Federal

                                   

Juiz autoriza tortura para desocupação de colégio no Distrito Federal
O Juiz Alex Costa de Oliveira, da Vara da Infância e da Juventude do Distrito Federal determinou no último domingo, 30, que a Polícia Militar promova a desocupação  do Centro de Ensino Asa Branca de Taguatinga, com métodos torturantes frente aos estudantes.
Na decisão, o juiz autorizou que a polícia:
a) suspenda o fornecimento de água, energia e gás;
b) acesso de terceiros, em especial parentes e conhecidos ao local;
c) acesso de alimentos ao local;
d)uso de instrumentos sonoros contínuos voltados para os estudantes;
A decisão utiliza da tortura para a desocupação – “uso de sons para infligir sofrimento a uma pessoa, privando-a do sono, é conhecida e antiga técnica de tortura”, afirmou o Procurador do Estado e colunista do Justificando Marcio Sotelo Felippe.
Além disso, o magistrado reforçou que os métodos devem prevalecer sobretudo na presença de crianças e adolescentes. Veja o andamento do processo no site oficial(AQUI) do Tribunal de Justiça do Distrito Federal.
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Ipanema votou em Crivella

Miguel do Rosário                     
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Não é mais tão linda, nem mais cheia de graça, ao menos para o campo mais progressista. Há tempos que Ipanema, assim como as áreas mais ricas da zona sul do Rio (o extremo sul da zona sul), tem se deslocado para a direita. Mas não deve ter sido fácil para as madames católicas da Vieira Souto optarem pelo mesmo candidato que venceu de maneira esmagadora na zona oeste e nas regiões mais pobres da cidade.
No entanto, para analisar o resultado do segundo turno das eleições no Rio de Janeiro, assim como das eleições em todo país, é preciso se despir de preconceitos.
As zonas ricas da cidade registraram o maior índice de abstenção. Na zona 165, que corresponde ao bairro de Ipanema, o número de abstenções, mais votos nulos e brancos, totalizou 14.568, mais do que a soma de votos em Crivella e Freixo.
Ou seja, quem fala em "desilusão" com a política deve especificar de quem está falando.
Por outro lado, o mapa eleitoral do Rio mostra um nítido corte de classe. Freixo ganhou nos bairros mais ricos, com exceção de alguns mais radicalmente ideológicos à direita, como Ipanema, Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes. Esses bairros têm votado, nas últimas eleições presidenciais, no PSDB, de maneira esmagadora.
A partir sobretudo de 2006, o eleitorado do PT migrou para as periferias e bairros pobres, mas com presença importante ainda nos bairros nobres mais ideológicos à esquerda, como Lapa, Catete, Flamengo, algumas áreas de Copacabana, Laranjeiras.
Entretanto, a inexplicável ausência do PT e de seus governos no campo da comunicação política criou um processo que já deveria ter sido detectado pelos analistas. A migração do voto petista do centro na direção das periferias não era um fenômeno de consolidação de um voto ideológico à esquerda nessas regiões, e sim um sinal de fim de ciclo. O fenômeno da pedra no lago serve aqui como ótima metáfora.
A pedra caiu no centro do lago. Era o voto petista ideológico no centro das cidades. Quando as ondas vão se afastando do centro, não o fazem para se fixarem nas periferias, mas como um movimento na direção para fora do círculo. É o fim da onda.
Não é possível responsabilizar apenas a mídia e a direita pelo fenômeno, porque isso é óbvio demais. É claro que a culpa da tomada de Troia se deve ao assédio dos gregos. No entanto, é preciso fazer a autocrítica: não fosse a estupidez de levar aquele bizarro presente grego, um gigantesco cavalo de madeira, para dentro da cidadela, não haveria a derrota.

Jandira Feghali: “Esquerda sem povo  não  vai  muito  longe

Theo Rodrigues                   

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Em suas redes sociais, a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB) postou uma profunda análise sobre a situação da esquerda na eleição do Rio de Janeiro.
De acordo com Jandira, "esquerda sem povo e sem ampliação não vai muito longe, como a história das batalhas eleitorais do Rio nos ensina".
Leia abaixo o texto na íntegra.
O recado das urnas no Rio e o
comportamento  da  Esquerda
Por Jandira Feghali 
Resultado de imagem para fotos de jandira feghaliA política se expressa de muitas formas e, neste momento pós eleições municipais do Rio, vale uma pequena reflexão. As urnas falam e falam bem alto. Porém os gestos também falam alto, pois refletem uma visão de presente e de futuro, direcionam estratégias, determinam aliados, a relação com eles e compromissos reais com o povo.
A vitória da negação da política e o comando da prefeitura do Rio em mãos conservadoras são um retrocesso. Lamento sinceramente a derrota de Marcelo Freixo, candidato apoiado por nós do PCdoB e demais forças de esquerda no segundo turno.
O palanque de Marcelo Crivella mostrou uma unidade de centro-direita, com lideranças religiosas e a expressão de uma visão atrasada de como “cuidar das pessoas”, por meio da negação da diversidade e pluralidade, características muito fortes na sociedade carioca.
O processo eleitoral ocorreu debaixo de um golpe institucional, da violação da nossa Constituição, da criminalização da política, com foco na eliminação da esquerda que governou o Brasil e em consequência dos direitos por ela garantidos.
Sinais de fascismo e Estado de exceção com envolvimento de agentes públicos dos três Poderes marcaram os últimos meses, contando com amplificação e consolidação da criminalização da política pela Grande Mídia, particularmente pelo sistema Globo de televisão, rádio, jornais e revistas semanais. Ao analisar este cenário, não concordo com os que acham que os erros da Esquerda foram a razão do golpe e da desesperança do povo, mesmo admitindo que existiram muitos erros.
Tudo isso tem exigido de nós uma demarcação clara de campo, a inserção da cidade que queremos neste contexto e o máximo de unidade possível do campo mais avançado e da Esquerda em particular. Todos sabíamos que no primeiro turno, o voto útil unificaria a opção do eleitorado à esquerda. Ficou claro que minha candidatura foi atingida por este movimento.
No segundo turno, porém, a unidade e a ampliação seriam fundamentais para enfrentar no Rio a onda conservadora que varreu o Brasil. Ainda que não ganhássemos a eleição, teríamos dado um grande passo em direção a uma perspectiva futura de unidade das esquerdas e do campo progressista. A soma não é apenas matemática, mas de forte simbolismo político.
No entanto, não dar visibilidade ao apoio do PT, da REDE e do PCdoB foi uma opção nítida da campanha de Marcelo Freixo, e a única alternativa que nos restou foi respeitar uma estratégia onde não cabíamos. Falando por minha candidatura, reafirmo meu compromisso no segundo turno, quando declarei apoio à candidatura do PSOL antes mesmo de terminada a apuração dos votos do primeiro turno.
Fizemos outras declarações públicas durante o processo, com vídeos, presença em atos na Cinelândia – como o de mulheres – com nossa tradicional militância presente na rua durante todo o tempo e de forma muito bonita. Mas é necessário dizer à sociedade que, se mais não fizemos foi porque entendemos o recado e respeitamos a decisão da candidatura de Freixo, que não buscou a nossa opinião, muito menos a nossa presença em demais atividades, imagens, TV e redes sociais.
Ao emitir uma “Carta aos Cariocas” para, tardiamente, atrair o eleitor de classe média mais ao centro, equivocou-se. Na minha opinião, seu conteúdo reforçou um movimento de “despolitização da política” fortemente presente no país, que acabou marcando as duas campanhas neste segundo turno e que pode ter contribuído para o altíssimo índice de abstenções. Isso foi visto, sintomaticamente, em maior grau na Zona Sul e bairros de classe média do que nos territórios populares.
A história já diz. As vitórias eleitorais da Esquerda no Rio sempre estiveram respaldadas no voto popular, e grandes votações nas zonas norte e oeste. Foi assim nas eleições de Brizola para governador em 1982 e em 1990. Lula, por exemplo, sempre teve votações expressivas no Rio de Janeiro, desde a sua primeira campanha em 1989. Em 2002 e em 2006, teve média de 70% dos votos nas zonas norte e oeste, performance repetida por Dilma em 2010.
O PSOL, que optou por não receber o apoio de Lula em sua campanha, nunca conseguiu chegar perto deste patamar nas regiões populares desta cidade. Faltou povo no seu eleitorado, porque talvez falte construir pontes com os setores da esquerda que construíram lastro e raízes históricas junto aos setores populares. Como escreveu Sidney Rezende em seu portal, “ajudar a Direita a desconstruir os demais partidos de Esquerda, principalmente o PT, pode abrir estradas ao PSOL, mas pode afastar delas quem ainda acredita que a esquerda mais unida, ainda que com divergências, seja indispensável para merecer seu voto”.
E a segunda lição das urnas para o PSOL é que a ofensiva anti-PT e anti-esquerda desencadeada nestas eleições municipais atinge também o próprio PSOL. O partido perdeu as 3 eleições que disputou nesse segundo turno, e vai governar apenas 2 pequenos municípios em todo o país. Pau que bate em Chico, bate em Francisco.
O mapa da votação na cidade é eloquente e fala por si. Esquerda sem povo e sem ampliação não vai muito longe, como a história das batalhas eleitorais do Rio nos ensina.
A responsabilidade agora é de todos nós.
Olhar para o futuro e repensar o papel da Esquerda, dos movimentos sociais em conteúdo, gestos e forma de relação com a sociedade, particularmente o povo trabalhador e menos aquinhoado. No centro do nosso projeto deve estar a recuperação democrática, os direitos e o desenvolvimento do nosso país.
Os desafios são muitos e devemos trabalhar em unidade e frentes amplas que nos permitam recuperar nossa referência. Devemos reconhecer a lição que saiu das urnas e seguir apoiando e incentivando a juventude em luta nas periferias, nas escolas e universidades ocupadas, os trabalhadores e mulheres guerreiras, os artistas que se expuseram com riscos reais para suas carreiras.
Há muito que fazer para superar os nossos limites e visões que dificultam composições mais amplas no campo da Esquerda e dos setores progressistas. É preciso permitir acumular forças entre os que defendem, como nós, um futuro de politização, ampliação da democracia e vitória do nosso povo contra a dramática agenda de Estado mínimo em implantação por este governo.

O PSOL  ocupa  o  lugar  do  PT?

O do voto popular é que não  é…

    votosfalam
O mapa acima, que “roubei” do Facebook da Tandara Santos, é o retrato mais expressivo da besteira que é dizer que: a) o PSOL tomou o lugar do PT e 2) e, bem pior, que o PSOL é a alternativa de esquerda no Brasil.
Lamento, porque gosto muito de amigos psolistas, nos quais reconheço sinceridade, mas não lucidez nesta quadra difícil.
Penso que se vergam com muita facilidade aos ventos contrários e aceitam o discurso dominante, como fez Freixo nessa segunda-feira(31/outubro), ao declarar que foi prejudicado por “tudo de ruim que aconteceu(LEIA AQUI) durante o ciclo do PT na Presidência”.
No fundo, talvez, não acreditem no conceito – e na sabedoria do conceito – do voto de classe.
E não entendam que o Brasil não é um país partido entre uma elite e uma massa, no qual a primeira vive no século 21 e a segunda, embora de celular, vive no 19.
Mas o mapa não evidencia apenas o erro do PSOL, mas o do PT.
A preocupação em ser palatável, “republicano”,  “de todos”.
Não, a política tem lado e o povo humilde não reconheceu no candidato “de esquerda ” o seu lado.
Como, historicamente, reconheceu em Getúlio, em Jango, em Brizola e em Lula o seu lado.
Os “puros” cometem este erro e pagam por isso um preço.
No primeiro comentário que fiz, após o primeiro turno das eleições, já registrava(AQUI) este traço na candidatura Freixo.
É bom lembrar, porém, que Freixo teve um percentual – 18% – bem pior do que os 28% obtidos na eleição anterior, em 2012, quando foi a grande surpresa.
Infelizmente, esta onda não chegou à Zona Oeste (à parte pobre, formada por Realengo, Bangu, Campo Grande e Santa Cruz), onde Freixo teve entre 6 e 11% dos votos(Crivella, 75%). Na parte rica, como era natural que fosse, venceu Pedro Paulo.
O problema da esquerda não é fazer uma política de alianças.
É tanto não fazê-la quanto deixar que as que faz as conspurquem.
O mapa aí de cima é apenas uma pálida ideia do que seria uma candidatura Lula no povão.
Onde você vê a vitória do Crivella, em geral, veria a de Lula.
E onde vê a de Freixo, provavelmente veria a de seu adversário.
A esquerda(autodeclarada) “moderna” anda se esquecendo da luta de classes....