sexta-feira, 6 de novembro de 2015

E se os deputados evangélicos 

testassem a “cura gay” em si

próprios?

Kiko Nogueira                

Ele
Ele
Na semana passada, no plenário da Câmara, o deputado Jean Wyllys disse que a Casa tinha, possivelmente, “homossexuais enrustidos”. Jean respondia ao colega João Rodrigues, que o chamou de “escória”.
A bancada evangélica tem uma obsessão estranhíssima com o tema, que desemboca em iniciativas as mais disparatadas.
Em 2013, Marco Feliciano aprovou na Comissão de Direitos Humanos e Minorias um projeto de lei de um par evangélico propondo a “cura gay”. A coisa acabou não indo adiante, rechaçada por entidades médicas. Mas ele não desiste. Declara que conhece várias pessoas que “largaram” de ser homossexuais.
Deputados obscurantistas ainda não descobriram uma cura para a estupidez, a paranoia, o ódio, a hipocrisia, a roubalheira ou a preguiça. Mas acham que gays precisam de remédio.
O próprio Feliciano deveria passar por esse tipo de tratamento antes de prescrevê-lo aos outros. Algumas das técnicas usadas:
. “Profissionais” ligam eletrodos na genitália e passam filmes pornôs gays. Dependendo da reação, choque.
. Um emético é servido aos “pacientes” durante a exibição de — novamente — pornôs gays. O sujeito vomita enquanto assiste.
. Um outro método conhecido: reza. Ou, como fanáticos chamam, “intervenção espiritual”. Há sessões de “descarrego”.
. Em abril de 2012, o escritor Gabriel Arana descreveu sua experiência: o terapeuta culpou seus pais por sua homossexualidade e pediu-lhe para se distanciar de suas melhores amigas.
. Um jovem americano processou seu psicanalista depois que ele pediu que ele se despisse e se tocasse para se “reconectar com sua masculinidade”.
Nos EUA, Obama pediu a extinção dessa picaretagem. “Partilhamos da preocupação a respeito dos efeitos devastadores sobre as vidas de trangêneros, gays, lésbicas e bissexuais”, disse a assessora da Casa Branca, Valerie Jarret. Foi uma reação ao suicídio de Leelah Alcorn, transgênero de 17 anos que se atirou na frente de um trator.
Lá como cá, essa empulhação é uma obsessão da direita religiosa. Desde 1990 a Organização Mundial da Saúde não considera a homossexualidade uma doença.
Para além da burrice, do atraso e da demagogia, está a velha vontade de ganhar dinheiro. A proposta da cura gay mudaria  uma resolução no Conselho Federal de Psicologia. “É direito do profissional conduzir sua abordagem conforme a linha de atuação que estudou e prefere adotar”, diz o autor do projeto, deputado João Campos.
Em 2013, pelo menos seis clínicas brasileiras ofereciam serviços de “conversão” — todas elas, evangélicas. Dependendo do que Feliciano conseguir, eis mais um filão a ser explorado por oportunistas em nome de Jesus.

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