O futuro ministro Lula
e a economia
O que ainda falta para o anúncio oficial de que Lula irá integrar o Ministério Dilma é um pacto sobre a necessidade de inflexão (e não necessariamente mudança) na política econômica. Por isso mesmo, ao suspiro de esperança de petistas e governistas com o provável ingresso de Lula no governo correspondeu uma reação negativa do mercado: ontem, no calor da notícia, o dólar voltou a subir e a bolsa caiu. Para compreender o significado da inflexão pedida por Lula é preciso revisitar sua conduta tanto em 2003, quando tomou posse pela primeira vez, como em 2008, quando estourou a grande crise do capitalismo, pela qual o mundo paga até hoje. Ele não subestima a importância do equilíbrio fiscal, mas é contra ajustes que penalizam exclusivamente os trabalhadores e que deprimam ainda mais a economia, agravando a recessão.
Olhando pelo retrovisor, o mercado reagia de forma contrária à de ontem entre o final de 2013 e o começo de 2014, quando o movimento Volta, Lula (como candidato) ganhava força. Boa parte do empresariado produtivo se empenhava, naquele momento, em convencê-lo a ser o candidato. Deu Dilma, vieram a Lava Jato e a crise, aqui estamos. Uma vez ministro, Lula tratará de usar todo o seu capital político para resgatar a governabilidade e derrotar o impeachment. E na economia, terá um desafio igual ou maior, o de resgatar o apoio da base social que rejeitou o ajuste fiscal de Dilma-Levy e, ao mesmo tempo, conter a rebeldia do mercado, que hoje em dia só se excita positivamente quando crescem as possibilidades de remoção de Dilma. E, com mais ênfase, resgatar a credibilidade do governo juntos aos que produzem e investem.
Já se foram 13 anos desde que Lula tomou posse pela primeira vez em janeiro de 2003, numa situação econômica também adversa, herdada do Governo FH, e que hoje os tucanos atribuem inteiramente ao risco Lula durante a campanha, embora a deterioração das contas já estivesse em curso desde o apagão elétrico de 2001, inclusive a inflação. Revisitar a conduta de Lula naquele momento pode ajudar na compreensão do que ele fará ou poderá fazer. Lula nunca deixou de valorizar a importância do equilíbrio das contas públicas e da credibilidade do governo. Tanto é que, a partir de 2003, com Palocci na Fazenda e Henrique Meirelles no Banco Central, seu governo tratou primeiro de fazer um ajuste, sanear as contas e domar a inflação. O superávit primário fixado foi de 4,25% do PIB, o que parece estratosférico. Em 2015, coerentemente, defendeu com ardor a ida de Meirelles para a Fazenda na montagem do ministério para o segundo mandato de Dilma. Não foi ouvido, ela preferiu Levy, o breve.
Ele explicitou sempre, entre outras, duas divergências do ajuste iniciado sob Levy e mantido mesmo agora, com Nelson Barbosa na Fazenda. Primeiro, a transferência dos custos do ajuste majoritariamente para os trabalhadores. Isso significaria, como ele sempre disse, “brigar com a nossa base”. E o ajuste de Levy teve este traço: mexeu com viúvas do INSS, como seguro desemprego e até com a bolsa dos pescadores. Pouco foi pedido das empresas. Houve a redução da desoneração da folha de pagamento, e só. Da mesma forma, ele é contra qualquer corte nos programas sociais, que em 2003 não existiam como hoje. Ele herdou de FH o bolsa-escola, o combate ao trabalho infantil, o bolsa gestante e outros embriões que em seu governo ganhariam robustez unificados no Bolsa-Família.
Uma segunda diferença: Lula criticou, desde o discurso de Dilma na segunda posse, a comunicação deficiente do governo e dela mesma sobre o ajuste. “Ela tem que dizer por que está fazendo ajuste. Não pode pedir sacrifícios sem apontar um rumo, sem dizer o que todos vão ganhar com isso lá na frente”, disse muitas vezes, inclusive a esta coluna. Era isso o que ele fazia em 2003, quando dizia nos discursos que Palocci estava arrumando a casa para que tivesse início o ciclo de crescimento e de distribuição de renda. E de fato a economia cresceu pouco em 2003 (1,15%), reagiu bem em 2004 (5,71%), foi ligeiramente contaminada pelo escândalo do mensalão em 2005 (3,16%) e 2006 (3,96%) e embicou num crescimento forte no segundo mandato, fechado com a taxa exuberante de 7,53% em 2010. A crise de 2008 trouxe um encolhimento passageiro em 2009, que Lula enfrentou estimulando o consumo e a confiança dos empresários. Errou ao prever uma 'marolinha' mas acertou no modo de enfrentá-la. Em suas falas estimulava o povo a comprar, a lançar mão do crédito que o governo estava oferecendo, juntamente com outras medidas para manter o ambiente econômico aquecido.
Agora, na vertigem da recessão, os números acima soam como ecos de um passado perdido. A forma como vem sendo feito o ajuste, na visão de Lula, vem acentuando o esfriamento da economia e a queda crescente na arrecadação, o que afeta as contas públicas, exigindo mais e mais ajuste....
Uma outra diferença. Quando presidente, a prioridade dele sempre foi a ponte com os empresários produtivos, e menos o mercado financeiro. Numa reunião da semana passada com luminares do PT e do governo, segundo notas publicadas pela imprensa, ele teria dito ao ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, que advertia para as reações do mercado a qualquer inflexão: “Nelsinho, esquece o mercado, nosso mercado é o povo”. Bem diferente, entretanto, foi sempre a atenção dele para com os que produzem, e para isso contou com reconhecida ajuda de seu vice-presidente, o empresário José Alencar.
Este diálogo com Nelson Barbosa remete a outra questão: Se Lula quer discutir com Dilma um inflexão da economia, será possível fazer isso com Barbosa na Fazenda? Segundo petistas, ele ficaria no cargo pelo menos por algum tempo. A prioridade inicial será enfrentar a crise política, debelar o risco crescente de impeachment. Mais adiante, se for necessário, Barbosa poderá ser substituido por alguém por ele indicado, que desperte confiança no empresariado e no mercado mas que não perca de vista o freio na recessão e a criação de condições para a retomada do crescimento. Ou ficar, se houver sintonia interna e se a cartada do PT com o 'ás de ouro 'chamado Lula produzir os resultados esperados.
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